As Últimas Luzes de Dezembro

Posted: sábado, 11 de dezembro de 2010 by Bruno Ricardo in
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É aqui no meu peito que mora a tristeza imaculada, a dor crônica imotivada, embora haja necessidade de interpretar a razão deste sofrer que não vai embora, cercando as minhas horas, a espreita de uma brecha, ferida aberta na alma do poeta.  Essa noite, de repente, ela volta, senta-se ao meu lado na ausência a cultuar o tolerável mesclar de sentimentos ainda vagos, indistintos em seus disfarces, porém tão reais quanto a realidade mais dolorosa.

Queria agora a estrada dura, o negrume do asfalto sob as rodas da motocicleta, enquanto o coração, a sangrar, segue decorando de rubro a camisa apertada que me envolve. A estrada, a me levar para longe, onde brotam os sonhos e as esperanças humanas são sintetizadas num belo jardim onde Deus plantara rosas brancas. A estrada triste que na há, inerte e imaginária escapatória para esse sufocante aperto ininteligível de meu ser.

Noite, doce companheira dos degredados insones. Luzeiros de trovões ecoam no teu céu em ligeiras e intermitentes auroras. Mas quando eu perceber, já estará chovendo lá fora, gotas preciosas apaziguando a febre dos dias sertanejos. Antes disso é mais frio dentro de mim, é extremamente insuportável prosseguir. Quem dera fosse a mascara taciturna que me assusta na passagem por essas veredas mas, infelizmente, é algo pior. 

Estou perdido nas trevas solitárias deste cárcere. Milhares de lágrimas, natimortas, jazem nos meus olhos antes do grito mudo. Ardem as minhas vistas. Sinto-me mais sozinho agora e a sensibilidade de meus dedos se vai, esvaindo simultaneamente em mim o direito humano de existir. Além dessa angústia eu me encontro, cego pelas verdades que minha tristeza, insensata tristeza, me permite distinguir. Atado às minhas costas repousa o peso de um mundo inteiro, o lar de plantas mortas e fantasmas de pessoas cruéis. Por sua vez, sob o julgo de correntes apertadas, desgastado metal a cortar os pulsos tão machucados, meus braços repousam ao lado do corpo, quietos, encerrados em seus túmulos sem epitáfios, pois desistiram de buscar a chave que abre essas algemas.

Como diz a música: “é uma dor que dói no peito”, apenas dói. Talvez seja somente a minha tendência ao drama, fruto das  sucessivas tentativas infrutíferas de assassinato do ego, ou os reflexos dos meus exageros misturados à conclusões precipitadamente errôneas.

Mas hoje eu estou triste assim e sinto tanta falta do mar.

Sinto falta de tudo.

PS: Oi! Como vão as coisas aí no Paraíso?

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It's about life

Posted: sábado, 27 de novembro de 2010 by Bruno Ricardo in
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Oh sim, meus queridos filhos, ainda que cabisbaixo este servo volta à casa das suas palavras avulsas tal qual retorna a casa do pai o filho pródigo que viveu um tempo por entre os porcos. Ah, são bichos tão exigentes estes com os quais convivi. A princípio considerei dar-lhes migalhas douradas de minha atenção e quando percebi já havia a muito me perdido, vendo a minha figura envolvida em sua imundice abjeta. Entretanto, não importa falar a vós sobre tempos idos, pois vim aqui, nesta noite negra, especialmente para falar sobre a vida.

Vida, em suas impossibilidades descritivas, em coleções de análises superficiais e resultados incertos, digo que há somente uma única verdade nessa torrente de respirações e batimentos cardíacos: a mudança, senhora da unidade.

Agora mesmo, a morte, ingrata realidade, é princípio único ou fato incontestável, mas nem ao menos possui força o suficiente para fugir ante as nuances das interrogações humanas, pois há neste mundo quem afirme que este derradeiro momento é senão começo de tudo.

Não quero duvidar nesta hora. Então será somente verdade aquilo que se prova por fatos, afirmações exatas, o material que permeia este discurso tresloucado.

23 anos nessa estrada. Excluindo-se as fatais comparações de ordem numérica este é um espaço de tempo demasiado extenso para o aprendizado. Quantas vezes eu respirei desde aquele amanhecer? Quantas vezes meu coração jorrou sangue para as demais partes de meu corpo? Quantos pensamentos brotaram em mim, desgarrados de minha alma, pulsaram em supernovas, embebidos em vida própria me consumiram e construíram meu mundo? Quantos? Tantos.

Reticências e dúvidas, mas certezas e lições trouxeram-me a esta noite de novembro, desfazendo-se em seus últimos dias. Atrevo-me a desfrutá-la no vislumbre de seus estertores, enquanto minha inspiração, fornecendo doses de fúteis epifanias, ri da desgraça e desfaz-se em sombras ao final destas linhas irrelevantes. Com nitidez eu percebo que a vida é senão uma sopa de mudanças, transeuntes de vielas ocasionais, descuidadas e imprevistas damas de luto, que sorriem da face abatida dos homens.

Oh, meus queridos filhos, isto é tudo que saberás com certeza sobre a vida. Hoje ha castiçais adornando as paredes e cadeiras negras de madeira aromática, emblemáticas em seus belos entalhes, revelando imagens de amanhãs bonitos. Serão, entretanto, no teu próximo despertar, memórias daquilo que jamais aconteceu. Quando vier a saudade da casa do pai, nem a dor indissolúvel será companheira, pois no tempo que esta vier a ser, novamente, dona desta noite de um novembro moribundo, não serão vocês os mesmo meninos aos quais um dia falei.

Oh, minhas crianças, corre neste peito um rio de lágrimas e risos, margeado pelo infinito desprovido de cais, e represa alguma possui poder para barrá-lo em lagos profundos. Sendo eu somente este rio, mudo a trajetória do destino mais cruel e perfuro a pedra bruta, escavando permanentes vales por onde minha presença se realiza. Mas o faço sem propósito e, discreto, admito não saber onde estará finalmente o meu estuário. O verbo transforma-me, eu transformo o mundo e este último sou eu, dançando no trânsito de inconstâncias.


E aqueles que nascem da dor de suas mães serão testemunhas desta verdade: a perpétua metamorfose de si em comunhão com o mundo, onde nos encontramos encarcerados nesta teia de linhas imaginárias, finitas, preciosos fios de vida soltos ao vento que sopra do mar desconhecido.


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"Now the drugs don't work"

Posted: segunda-feira, 1 de novembro de 2010 by Bruno Ricardo in
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“Esta é a vanguarda dos meus dias mais escuros.
Porque hoje a luz deixara a minha vida”.

Assim escrevera com letras bem desenhadas nas linhas azuladas do caderno até então não usado, presente de sua mãe, este amálgama de palavras que abandonaram a morada de seu inconsciente.

Aníbal morrera sozinho no deserto, acometido pela sede e inanição, pelo amor não correspondido e pela queda de Azaléah, utopia moribunda a deitar-se, tal qual uma vadia, no fundo do mar. Miranda fora decapitado numa tarde de quinta feira, por não conseguir desviar-se das escamas prateadas da grossa cauda de um dragão incauto, desgarrado do bando, assustado com o barulho das máquinas de guerra. Oliver caiu desse precipício e nada restou de seu corpo que fosse o suficiente para um funeral. Abaixo, viram somente uma grande mancha escarlate a colorir as paredes de pedra e cegar-lhes os olhos, lá embaixo um vislumbre de horror tamanho, obscurecido pela sombra que habitava as profundezas de seu último repouso. Thomas pereceu após muitos dias de lágrimas involuntárias, provocadas pela intensa perturbação vinda da árvore da guerra. Valéria sobreviveu ao genocídio e as batalhas pela torre de seu clã, mas o fogo que veio do céu fizera de seu sorriso uma brasa vermelha e negra. Um leito de dor restara para os teus pais, a muito esperando, ansiosos, a chegada do último anjo.

 Quem lhes fala agora? Somente um contador de histórias de eficiência contestável e sem talento algum para desempenhar tal ofício. Apenas este servo de Deus, que já abandonara o reino dos homens no intento de viver no exílio, na ilha da noite. Recluso, impossibilitado de possuir aquilo que lhe falta. 

 Oh, este velho e pequeno escravo, arruinado pela sombra do terror, agora acostumado às amarras e grilhões de ferro, amigo de sonoras correntes seguindo seus passos: deixai que esta aberração vos fale. Pois estou me afogando em desespero e gostaria muito que alguém pudesse me ajudar. "Now the drugs don't work. They just make me worse..."

Aníbal me disse adeus, acenou na distância, quando eu o vi em forma de sombra, uma silhueta negra contra a luz do ocaso. Miranda não me concedera o abraço que prometeu nos campos de trigo, pois por ele esperei durante trezentos anos e sequer notícias de sua morte recebi. Oliver nadou nas águas claras do rio com nossos primos, junto às muralhas, mas não comeu do peixe assado nas margens. Thomas mudou-se sem bagagens para Liverpool. Valeria teve o coração trespassado pelas minhas dúvidas, agonizou em seus derradeiros instantes, faleceu, finalmente, vitimada pela vilania disfarçada de meu egoísmo, pelos anseios de minha meninice, e nunca mais me mandara uma carta dentro de uma garrafa lançada ao mar. 

Restou-me morrer mais uma vez, antes de abraçar-me a loucura. Ou será o viver a insanidade que não consigo suportar? Aqui, no meu prato, a comida fria a me adoecer, o fardo vazio e pesado atado às costas, “the same old fears”, os recorrentes pesadelos de violência absurda, os dias de névoa negra a cobrir a entrada da caverna, as criaturas deformadas que gritam no meu quarto por toda a longa noite. Sobrou para este servo o pão nosso de cada dia, que comerei sozinho, calado, morrendo por toda a eternidade.


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À Minha Mãe

Posted: quinta-feira, 29 de julho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Petrolina, 29 de Julho de 1923

Desculpe-me se as letras desta carta tiverem uma aparência trêmula, mas agora o meu corpo está reagindo ao frio ansioso de minha alma. Nesta hora, está difícil fazer qualquer coisa que exija um pouco mais da minha coordenação motora.

São precisamente cinco horas e treze minutos de uma manhã de quinta feira, enquanto essas palavras começam a abandonar-me. Faz frio aqui dentro do pavilhão, lá fora talvez não com a mesma intensidade. O ventilador coletivo move as suas hastes plásticas acima de nossas cabeças, a fim de produzir um vento artificial, um alento aos que sentem um inevitável calor noturno, mas para mim um capricho desnecessário, salvo pelo barulho que produz, abafando os gritos dos mutilados na longa madrugada, ainda gemendo na enfermaria improvisada montada diante de nós.

À noite eu acordei duas vezes enquanto dormia. Esta foi a segunda e definitiva. Nessa situação é preferível levantar-se e buscar alguma atividade para ocupar a mente a ficar rolando na cama em agonia, lembrando-se de pesadelos recorrentes ou memórias perturbadoras do dia de amanhã. Muitos aqui o fazem, os capitães nos permitem algumas regalias ou fingem não perceber a nossa leve insubordinação neste e em outros casos.

Mas desta vez não foram os gritos humanos que me despertaram. Estou angustiado demais para me manter dormindo, aqui os meus medos são incessantemente renovados. Talvez sejam as crises respiratórias, menos constantes depois dos remédios que chegaram a dois meses atrás. Afinal, de quê adianta buscar um motivo se a algum tempo eu já estou acordado?

Por esta razão única, ainda que não entenda o objetivo dessa manobra involuntária dos meus dedos, deito a pena sobre o papel, a desenhar formas em seus significados, na tentativa inútil de reproduzir aquilo que de forma indistinta corrobora a sua existência. Medo, inquietude, pulmões constantemente esmagados pelo nada, como poderia reproduzir tais coisas com palavras?

Ontem vieram Dragões negros e tomaram a ponte e a cidadela, afastando as nossas últimas defesas do rio. Uma surpresa bastante desagradável, não nos encontrávamos preparados para enfrentar tais diabruras. Garras aladas rasgaram a carne de muitos homens e outros tantos foram queimados por labaredas das quais não havia escapatória. Houve fogo no céu nessa tarde vermelha ao passo que sórdidos gritos vindos dos mais profundos círculos do inferno, eram proferidos por aquelas bocas fumegantes. Talvez, parte das tropas Orientais bombardearam seus territórios e as feras foram então tomadas por uma violência incontrolável, arremetendo-se sobre nós, que nos encontravamos mais próximos dos contrafortes desses montes cinzentos.

E durante toda a noite reproduziu-se o terror do dia sob outras formas não menos hediondas. Damas sem rosto usando vestidos feitos da pele escura dos dragões mortos, bruxas vindas das derradeiras minas fantasmas, entoaram canções encantadas dos altos dos montes, levando o desespero para dentro de nossos corações já abalados. Seus risos sinistros paradoxalmente nos causaram tristeza. Até agora a pouco havia ecos desse maldito canto sonoro, percorrendo os pavilhões, uma melodia terrivelmente harmoniosa anunciando a inevitável morte. Antes que eu viesse a dormir, soube que muitos dos nossos, enlouquecidos pela tristeza, atiraram contra a própria cabeça ou contra os outros companheiros de quarto, enquanto alguns dilaceraram os pulsos com a lâmina das cimitarras.

Nas nossas mentes, todas essas coisas nos pareciam lendas de um mundo antigo e perdido. Quisera isso fosse verdade. Algo me diz que outras vezes voltarei a desejar isto.

Ainda que eu não mais mencione e o correr de muitos anos me levem à velhice estagnada, uma hipótese tão irônica, a lembrança desses horrores me causará a mesma vívida sensação ou ela será apenas despertada como uma besta sonolenta habitando o meu peito. De fato, eu nunca sairei desse campo de sangue. Estarei preso a ele permanentemente, com os meus irmãos, em vigília, aqui onde a noite é mais escura. Será que já estamos mortos? Chego à conclusão que nenhum de nós poderá voltar para casa um dia.

Os primeiros raios da aurora investem sobre o acampamento, ao fim dessa carta já não precisarei da luz do lampião para escrever. Não tenho certeza se esta chegará as suas mãos, assim como outras que escrevi nos últimos meses que perderam-se nos contínuos ataques aos comboios que nos foram relatados.

Esta é uma terra de incertezas e cada um de nós está sozinho, a falar com confidentes invisíveis, distantes demais do acampamento. Eles são vocês, que deixamos para trás, sem esperança de voltar a vê-los em vida. Pedaços de papel são as únicas estradas nas quais seguem os nossos desabafos. Antes fosse somente algo a se fazer, caso o sono nos abandone no meio da noite. Agora sei que é inevitável desabafar enquanto se escreve. E então, aqui eu o faço.

Antes não quis lhe contar, mas agora sinto um medo maior que a minha capacidade de suportá-lo.

Minha mãe, eu sinto tanto a sua falta, apesar de nunca confessar tal fato na tentativa de manter-me firme perante os outros homens. Sinto saudade de todos em casa, mas a sua ausência é a mais perturbadora, a mais dolorosa.

Durante esses dias tenebrosos, tenho que conter todas as minhas lágrimas, aqui não há tempo para isso, não nesse lugar de onde podemos ver o início do fim do mundo. Mas se houvesse uma oportunidade, gostaria de chorar. Não posso cair na tentação de fazê-lo, porque talvez o pranto se alongasse por muitas horas. Infelizmente, quisera os homens do outro lado do mar fazer guerra contra os do leste e embora nós sejamos um povo pacífico dos campos, ha uma voz interior ininterrupta nos convocando a defender a terra de nossos avós, que tanto lutaram para desbravá-la e cultivá-la. Muitos dos filhos do ocidente vieram à contragosto, arrancados de casa por duras ordens previamente determinadas. Contudo, durante a marcha, as belas paisagens do Vale inspiraram até os mais arredios e inconformados a lutar contra a dominação estrangeira.

Minha mãe, minha linda rainha, tão pequena e frágil, tão dona de mim, desculpe-me pelo horror do meu relato, no entanto só posso confessar seus medos à sua acolhedora lembrança, mesmo assim tão rapidamente, nos poucos minutos que tenho antes do fim. Já não posso lembrar-me de ti agora pois me chamam lá fora para avistar algo que se avoluma no céu. Asas negras deixando as margens do rio, acho que os dragões estão finalmente se dispersando, talvez ainda hoje possamos recuperar as torres de guarda da margem oposta.

Espero que Oliver e Thomas tenham lhe enviado suas cartas também. Eu não pude seguir com o grupo deles para a missão a qual foram designados, e nos separamos a dois dias no front das Encostas dos Condenados. São mais espertos que eu, os seus meninos mais moços. São as fonte da sua alegria. Eles ficarão bem, estou certo disso, logo voltará a vê-los a trabalhar nos vinhedos.

Peço que não conte nada ao meu pai sobre esta carta nem sobre o meu medo, para não lhe causar constrangimento algum. Sou o seu guerreiro, o seu estandarte sempre inabalável. Que ele possa me preservar assim em sua memória.

Estou indo, agora, deparar-me com o flagelo dos homens. Aqui, na fronteira do desterro, os golpes da guerra são os mais fortes. Vou me preparar para mais um longo dia de combates e mesmo que o terror me cegue, reze para que as minhas reservas de coragem sejam perpétuas ou pelo menos o suficiente para manter-me aquecido nas noites que não acabam.

Mãe, não posso prometer-lhe retornar para casa e cuidar das nossas coisas simples, como sempre fizemos. Faça-o pelo seu filho mais velho. A única promessa que lhe faço é ama-lá, nessa fugaz eternidade que a guerra me concede, até que a vida seja fatalmente tirada de mim.

Com amor

Miranda, Angelo F.
Segundo sargento de infantaria - 30ª brigada da Última Milícia do Leste


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Dreamwalker - Walking on the Ruins

Posted: segunda-feira, 26 de julho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Aqui registro partes indistintas do mais atual relato daquele que caminha em sonhos lúcidos. Afirmo que esta não foi a primeira vez que vira o mar, porém a única ocasião em que, mais tarde, ousou descrevê-lo em seu pensamento através de palavras, o quê lhe provocou uma intensa dor de cabeça.


Havia despertado finalmente, após longas horas de um sono perturbado e encontrava-se deitado, com os olhos semicerrados voltados para o céu nublado, os braços estendidos sob a areia úmida de uma praia insólita. Em suas recordações quase não há a menção do brilho solar costumeiro do mundo consciente ou esta perdera-se nos atalhos corrompidos das suas sinapses imaturas. De fato, não estranhou a iluminação deficiente daquele cenário. Talvez pela razão de, após tantos implantes oculares mal sucedidos (maldita heterocromia) ter tornado-se excessivamente sensível à luz natural do dia, um fogo incolor que queimava as suas íris intensamente alteradas, fazendo as pálpebras feharem-se ao menor estímulo luminoso. Contudo, para qualquer outro observador, tal ausência do sol era uma incongruência desagradável naquela paisagem.

Sentou-se então e em sua primeira reação pôs os ouvidos na direção do mar sem ondas que se estendia a sua esquerda. Não seria capaz de afirmar a exata distância a que se encontrava daquelas águas salgadas. Além do barulho das ondas, o silêncio predominante o reprimia, não o suficiente para intimidá-lo. Sempre teve medo de amplos espaços abertos e desolados, mas um simultâneo fascínio pelos mesmos. A muito tempo apaixonou-se pela imensidão vazia desses ermos, que o expõe a todas as coisas invisíveis, constituintes do seu ser. Porém, a solidão daquela praia já havia sido maculada pela presença de corpos estranhos dispostos ao longe na areia, sombras que a sua visão começava a distinguir, pois tornavam-se mais nítidas a cada instante.

Aos que leram até este ponto, aviso: o que se segue perturbou profundamente os sentidos daquele que o viu. Não por horror ou asco inerente àquilo que reluto em descrever. Mas, assim como a inexistência de um sol no céu sobre uma praia deserta em pleno dia nos causa estranheza, a imagem que seus olhos observaram poderia fazê-lo enlouquecer subitamente, sem que percebesse. Não se preocupe, serei cuidadoso e as próximas linhas não serão capazes de lhe provocar nenhum transtorno.

Não comprometerei meu relato com meias verdades, apenas usarei a sutileza concedida pelo mais profundo eufemismo para dizer que ali havia destroços. Peças arruinadas e de proporções terrivelmente assombrosas, atiradas à costa por força desconhecida. Não precisou caminhar até elas para distingui-las em sua desconfortável realidade, era desnecessária uma maior proximidade para perceber os detalhes incômodos.

Condenou internamente a infeliz razão inexplicável da perfeita funcionalidade dos seus olhos e ouvidos naquela ocasião absurda.

Eram milhares de pedaços negros de grandes prédios, afundados na areia, espalhados em fila, muito próximos do mar, distanciados por uma incomum simetria, alguns como que cortados em sua metade superior, outros exibindo os alicerces metálicos e enormes pilastras erguendo-se da decadência, tal qual torres agourentas encimadas sobre montes de fragmentos inúteis e de aspecto sombrio. Incontáveis eram aqueles restos. Eram como que feitos para gigantes habitarem. Conscientemente, ninguém ousaria quantificá-los pelo motivo de ser impossível olhar para eles pelo tempo necessário e ainda lembrar-se de manter a sanidade psíquica.

Parecia que as ondas ecoavam os seu gritos através dos escombros, sons que se assemelhavam a vozes e lamentos. Supunha que ainda havia pessoas naqueles prédios, imersos em seus afazeres, quando algo terrível lhes ocorreu, pois confundindo-se com o metal retorcido e o entulho disforme, os restos que avistou não eram somente feitos de concreto. 

Apesar disso, a pavorosa impressão de que algo não-humano sairia a qualquer momento daquelas janelas distorcidas ou dos buracos escuros nas paredes tornou-se insuportável. As ondas gritavam num tom grave e doentio, descansando entre pequenas pausas. E num desses curtos intervalos, ele então reuniu alguma coragem e levantou-se trêmulo, caminhando a esmo por algum tempo, tendo à sua esquerda e a pouca distância, a alameda de restos mortais dos edifícios a acompanhá-lo. Vez ou outra os fitava e olhos ocultos pareciam persegui-lo em sua caminhada. A faixa de areia era curta. O nada dominava o seu lado direito. Por essa razão ele não caminhou naquele sentido. A sua frente não é possível descrever com exatidão o que havia, pois ele não recorda de mais nada, além da sensação dos pés caminhando apressados, do medo que crescia a cada passo e da luz cinzenta possuindo aquele dia. 

Aves em bandos sobrevoavam ansiosas o topo dos prédios. Barulhentas, descreviam círculos no ar e pousavam no topo das construções. Uma ou outra adentrava as ruínas, saindo de lá com alguma coisa presa no bico. Alçavam vôos curtos até alcançarem um lugar seguro e isolado dos seus e ali abaixavam a cabeça, punham aquilo que carregavam no chão e rasgavam-no em movimentos constantes, engolindo os pedaços menores que obtinham daquela ação obstinada. Sentiu nojo sempre que relembrou essa cena.

O mais surpreendente aconteceu em seguida. Quando viu tal coisa, achou que sua razão o abandonara de vez.  Eram frágeis e perceptíveis os movimentos familiares de braços e pernas assomando em alguns poucos lugares. Tampouco eram vultos ou fantasmas o que via.

Ergueu o olhar e surpreendeu-se. Sentados no alto de colunas parcialmente destruídas, encontravam-se pessoas a contemplar o mar, absortas em sua minuciosa observação. Eram poucos indivíduos, talvez dez ou quinze ao todo, separados por grande distância uns dos outros, cada qual suspenso em ruínas diferentes.  Alguns eram homens, outros mulheres. Sua nudez não espantou o atônito passante. Não foi na direção deles enquanto os espreitava angustiado, mas todos eles notaram a sua presença e ergueram a mão num aceno no momento em que o avistavam. Sorriam em silêncio enquanto o faziam, apesar dele não ter correspondido a nenhum dos cumprimentos a ele dispensados. 

Nessa hora, voltou-se sem esperanças para a sua direita e percebeu que um cenário diferente brotava daquela morbidez. Foi que se fez luz, de repente, e os destroços ficaram para trás. Uma estrela amarelada resplandeceu, acalmando-o.

A bela cidade emergiu por mágica. Prédios intactos enfeitavam a orla e pessoas apressadas caminhavam na calçada de pedras brancas. Notou que montanhas altas circundavam aquela nova paisagem. Eram azuladas na distância, mas perto dos seus olhos pareciam uma única e verde muralha. Todos ali esboçavam uma expressão de felicidade plena, embora ele ainda  se sentisse inundado pelas sensações ruins de outrora. A alegria vinda daqueles rostos não se assemelhava a alegria catatônica daqueles homens e mulheres da praia. Apegava-se ao novo vislumbre enquanto tentava apartar-se das memórias desesperada dos instantes anteriores.

Estava em pé na calçada, o mar às suas costas, quando um ônibus parou próximo a ele. As portas abriram-se num suspiro ruidoso. Lembrou-se que deveria estar em outro lugar naquele exato momento. Sentiu-se atrasado para um compromisso inadiável. Entrou no veículo e sentou-se num banco, encostando intuitivamente o cotovelo no vidro da janela enquanto a mão direita segurava a barra de ferro que servia de encosto para o banco a sua frente. Esqueceu-se de vez da praia dos destroços, no momento em que retirava a máscara de dentro do bolso da calça na intenção de usá-la. O brilho da luz tornara-se suficientemente forte para aturdi-lhe a vista. A máscara que lhe fizeram dessa vez reduzia os efeitos da sensibilidade ocular. Além disso, este acessório possuía várias outras funções que não revelarei aqui, apenas o fato de quê era um equipamento indispensável as suas viagens por a reduzir fragilidade de seus pulmões, quando esses estabeleciam contato com o ar do inconsciente, o quê também estava auxiliando a diminuição do risco de rejeição do braço mecânico recentemente implantado.

A sensação de atraso o dominava, o deixava ansioso demais. O ônibus fez uma curva, dobrando uma esquina, revelando uma pequena praça mais a frente. Algo lhe ocorreu, o impulsionando a descer do ônibus de imediato. As portas abriram-se uma outra vez, fez-se o mesmo suspiro mecânico. Desceu em profunda aflição. Atravessou a rua apressado parando no largo. O sol jazia no meio do céu, mas a praça era sombreada pelos galhos entrelaçados das duas árvores que cresceram em seus pólos e encontraram-se no meio num desejo desmedido de unirem-se uma a outra, não permitindo que a luz penetrasse ali embaixo.

Ele havia entendido o significado daquela união. A calma retornou para dentro dele enquanto lembrava-se do compromisso que a pouco o perturbava.

Na praça das árvores unificadas ele haveria de encontrá-la ao meio dia. Um sorriso nasceu na sua face, fazendo-o se sentir ridículo usando aquela máscara feia. Quando a retirou do rosto sentiu duas mãos encobrirem os seus olhos e por meros segundos assustou-se. Eram mãos enormes e delicadas as que lhe cegavam de propósito. O seu sorriso abriu-se sem pudor, nada mais poderia censurá-lo no momento em que reconheceu aquele toque confortável.

Eram as mãos da sua amada, pregando-lhe uma brincadeira. Virou-se para abraçá-la e retribuir as carícias, quando percebeu que ela parecia muito maior que o normal.

Vestia uma blusa cor de rosa e um short branco e tinha quase a altura das árvores da praça. Era uma menina morena, de cabelos pretos e um belo sorriso, capaz de contagiar qualquer um que o visse, inspirando-o a sorrir em consonância.

Ah esses sonhos nos pregam peças estranhas. Mostou-lhe a mulher amada de forma imponente para tentá-lo a desistir do abraço, para tentar assustá-lo em seus domínios. Tudo isso foi em vão.

Talvez porque é dessa forma que ela vive dentro de sua mente, grande e soberana, acolhedora em seus toques e abraços, uma guardiã a protegê-lo e amá-lo. Todavia, ele a abraçou com intenso alívio, mesmo sob aquelas circunstâncias, pois caminhou por horrores, guiado pelo amor de sua menina, a chamá-lo num canto lírico soprando em seus ouvidos, mesmo quando ele adormecia.

Não sei ao certo, mas durante aquela união ele tornou-se tão grande quanto ela ou ambos diminuíram e desapareceram, fugindo para um lugar secreto onde moram aqueles que se amam.

...

Muito obrigado pelos livros, nêga. 
Realizou um sonho meu, porque talvez eu nunca poderia realizá-lo.
Te amo, minha linda.

Bruno

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Overdose melancólica deliberadamente provocada

Posted: quinta-feira, 15 de julho de 2010 by Bruno Ricardo in
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É preciso uma dose esporádica de tristeza, a quantidade exata capaz de causar uma cegueira momentânea, para nos perdermos nas nuances da realidade, voltando os olhos para mundos interiores. E por esse caminho, assumimos o caráter de expectadores de nós mesmos, diante de uma dor simulada ou uma tristeza passageira, febre de tardes inteiras, que concede a oportunidade de nos abstrairmos da vida humana tangível.

É necessário, talvez um dia ou outro durante a semana, ouvir qualquer palavra sobre coisas perturbadoras que nos metem medo. Entorpecer os sentidos com sentimentos de um pesar indescritível, sentir todas as dores do mundo concentradas num único ponto.

Nesta hora, é possível emergir na memória lembranças perturbadoras de momentos únicos, quando atravessamos o âmago da agonia e de lá saímos desfigurados.

Quem sabe ouvir músicas tristes, ecos de melancolias alheias, nos proporcione um conforto amargo. Senão, notas musicais serão justificativas plausíveis para o pranto que fatalmente se desenrola. “The Drugs Don’t work”, uma opção para uma desculpa perfeita, disfarçada em sussurros acústicos vindos de alto-falantes estereofônicos, é capaz de atirar a alma no vazio dessa existência.

Por alguns instantes, sintam-se como aqueles habitantes das ruas, colecionando moedas e restos como sopros necessários de oxigênio. Vivendo debaixo das sombras das pessoas que deveriam ser, agonizantes nesse simulacro de ausência de humanidade. Sejam como os filhos do homem, que dormem sob o descaso de um céu de estrelas insensíveis e cobrem-se com a nossa indiferença costumeira. Em segundos, perder-se-ão em suas lágrimas, escorrendo adiante nos seus leitos rudes, onde dormem as raízes de concreto das cidades.

Percebam quando os dias escurecem prematuramente e a nossa vida se esvai nas voltas dos ponteiros do relógio. Cada minuto contém em si passado, presente e futuro, num ciclo de inevitável sofrimento. 

Bombardeados pela radiação invisível e incessante vinda de tubos de raios catódicos, monitorados conscientemente por tecnologias fúteis nesse mundo de cronômetros e compromissos indissolúveis, notem que toda a informação que nos chega é derivada do caos. Compartilhamos o mesmo monóxido de carbono nessa asfixia coletiva. Olhamos apáticos o céu cinzento desses últimos dias. Perdeu-se a nossa vida na automação dos cumprimentos diários, nos sorrisos fingidos que por vezes tornam-se máscaras de opiniões oblíquas. Aparentamos uma surreal satisfação no toque insensível de periféricos variados. Mãos acostumadas à matéria artificial deviam, entretanto, sentir o calor de outras mãos mais constantemente.

Quando as quatro paredes do quarto nos fecham numa gaiola e os blocos quadrados de gesso do teto ganham nomes próprios, dentro de nós haverá menos luz, mesmo sendo dia lá fora. Tanta lágrima e somente dois olhos para vertê-las. Quando se sentir atrasado, antiquado, diferente dos outros e tua liberdade diminuir na ausência de conformidade mundana, restará perceber-se sozinho, escrevendo frases curtas e sem coesão, dissimulando um falso entendimento.

Então conseguimos. Perseguidos pela irresistível tristeza, predadora de nossa identidade, nos vemos acuados num vale escuro, onde todos os cantos são inexploráveis, mesmo visitados em outras tantas ocasiões oportunas.

Agora, não há o cheiro familiar de flores azuis em um jardim perdido no futuro imaginário. Quatro semanas são apenas pedaços indistintos de uma eternidade. Suspiros são vírgulas dessa crônica de dicotomias. E vagando nessa pequena amostra da morte, procrastinar se constitui no último recurso dos desesperados, na tentativa diária de assassinar sonhos, então considerados absurdos demais para serem realizáveis.

E nessa dança contínua, a saudade, de alguém que se foi de repente, nos deixando para trás, despidos numa terra selvagem, percorre o ânimo, graciosa em seus passos principiantes (Lembro-me bem daquela noite, meu irmão, pois foi a primeira, talvez a última vez que li “O Chamado de Chuthulu”. Maldito Lovecraft, que manchou a minha memória com aquela frase impronunciável).

Talvez esse sentimento lúgubre, seja a condição que nos aproxima em unidade. Essa mesma aflição que domina o peito de reis arde igualmente nos corações mais plebeus em noites frias de inverno.

Quem de nós está imune aos mais fúnebres aspectos da existência?

...

Desperto. O que aconteceu, afinal? Minha mente vagou nesse raciocínio por um tempo indefinido. Acordei, talvez, devido à horrível sensação de cansaço que a melancolia provocara. Lembro-me que agora a pouco era tarde, mas já a algum tempo Tilion atravessara o tempo e conduzira Isil pelo teto celeste.

Um banco de madeira sobre a praça e uma catedral gótica a minha frente, torres brancas e imponentes rasgando o véu da noite. “Não sabia que os homens podiam construir algo assim”. No absoluto, um claro som de metal se apresenta nesse silêncio urbano. Sinos avisam que já passa das nove horas. Um refrigerante de limão e algumas porções de snacks crocantes, isentos de gorduras trans, não me trazem consolo. Não há mais ninguém neste lugar. Somente eu, mesclado a minha confusão, um amálgama de agitação e torpor que aos poucos vai minguando o seu potencial. Sai ileso dessa overdose de angústias. As idéias demoram a apaziguar-se na mente, povoada de ilusões dispersas, tal qual os restos de prédios e casas destruídas após um severo bombardeio. E no instinto natural, a razão me permite recordar os dizeres de Schrödinger, vagando nessa desordem cognitiva:

“O que é isso que lhe chamou tão repentinamente do nada para desfrutar por um breve tempo um espetáculo que permanece bastante indiferente a você? As condições para sua existência são tão antigas quanto às pedras. Por milhares de anos, os homens se esforçaram, sofreram e procriaram e as mulheres deram à luz em dor.

Cem anos atrás, talvez, outro homem – ou mulher – se sentou neste ponto; como você, ele contemplou, com temor e receio no coração, o morrer das geleiras. Como você, ele foi criado de um homem e nascido de uma mulher. Ele sentia dor e breve alegria, como você sente.

Ele era outra pessoa? Não era ele você mesmo?”

Sinto a minha insignificância diante da incompreensível vida, limitada em si mesma pelos mistérios de suas arestas. Um ponto ínfimo e único do universo. Bem assim, destituído de evidente importância, me torno imagem fiel de toda a gente que compõe essa Terra.

Sou um pescador sentado em sua jangada sobre as águas do mar. Sou um negligente líder de uma nação qualquer. Sou o choro de uma criança solitária, desolada por anseios infantis não realizados. Sou o cadáver revelado, flutuando na imundice. Eu sou você, que agora lê essas palavras desordenadas. E você é a humanidade.

Image Credits: HelloMyNameIs8D

Muro de Berlim

Posted: segunda-feira, 5 de julho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Noite de sábado. Lá fora movia-se silencioso um vento frio. Havia nuvens encobrindo as estrelas, invisíveis, como atores ocultos pelas cortinas inalteráveis de um firmamento nublado.

Vestia uma camiseta preta de mangas curtas, esta sem detalhe algum, e uma calça jeans azul marinho, que sob a luz noturna ganhara um tom mais escuro, confundindo-se por segundos com a obscura camisa, na uniformidade de um único matiz sombrio. Um escapulário de prata, outrora presente dos meus pais, descansava gelado ao redor do meu pescoço, deixando a Virgem Maria me cobrir as costas, enquanto o Cristo descansava sobre o meu peito. Uma jaqueta índigo, pouco usada, quase rústica, produto do mesmo denim da calça, defendia-me do vento insensível, encerrando assim a armadura. 

Tudo era negro mais além, o mundo soava uma canção extraterrestre enquanto eu tencionava a dirigir-me para a rua. Hesitei. Senti-me só, perplexo como um estrangeiro em terras incógnitas. Foi que, inesperadamente, disperso na noite, um medo conhecido pousara na minha janela e me tomara os sentidos mais fundamentais, turvando a minha visão, acelerando meus batimentos cardíacos, roubando-me o ar, numa sensação de sufoco avassaladora. Este temor veio ligeiro para junto de mim, fazendo-me imaginar possíveis situações embaraçosas, advindas do ato de sair, cujo protagonista seria eu mesmo, entorpecendo assim o meu pensamento, deixando-me apreensivo antecipadamente e sem motivos reais. Logo, meu sistema nervoso autônomo, cumprindo o rigor de sua atribuição biológica, despertou no meu interior um profundo estado de alerta, frente a um perigo iminentemente imaginário. Um quê de ansiedade infundada, porém familiar, misturada a uma vontade tentadora de permanecer em casa, a fazer absolutamente nada, quase me convenceu a preservar-me na segurança do meu calabouço pessoal.

Ah, essa doce timidez, companheira de tantos anos... Em doses homeopáticas, pudera ser um traço charmoso de minha pessoa, mas, infelizmente, o acanhamento insistente se fazia presente, eternamente, me sabotando em ocasiões diversas, qual produto de minha alquimia fisiológica peculiar a me envenenar com tamanho desconforto.

A noite avançava e eu acabei por admitir a inquietação. Que mais eu poderia ter feito? Todavia, face ao pavor, fiz brilhar o escudo de madeira e retirei uma espada inexorável da pedra psicológica, um desesperado esforço individual que me permitiu combater este meu monstro inibido em seu primeiro instante, o atraindo para fora do cativeiro para decapitá-lo, enfim. Era necessário fazê-lo. Eu precisava sair de casa, visitar outros limites, para fora dos destinos previsíveis de minha rotina diária, aqueles cuja timidez me concede uma permanência indispensável. Eu escolhi sair.

O motor da moto, predominantemente preta, soava nas sombras do asfalto melancólicos acordes de correntes e engrenagens de metal, vindos em uníssono do abismo mecânico do qual brotaram. Levantada, a viseira do capacete vermelho, excessivamente riscada, permitia o vento cortar o meu rosto em talhos indolores. Este sopro noturno me amedrontava, por vezes sob a forma de um grito aterrador, ecoando insistente nos meus ouvidos.

Prossegui, me arrisquei, levando o medo e todas as sensações desagradáveis e ansiosas comigo, na garupa, a 80 km/h. Atravessei toda a cidade em direção ao outro lado do São Francisco. A ponte, altiva sobre o rio, era a última fronteira, depois dela não havia volta. Do outro lado era Bahia. Ali um evento se desenrolava. Reuniram-se músicos diversos, estilos diferentes sobre um mesmo tablado instalado na orla do Velho Chico, debaixo daquele céu estranhamente nebuloso.

Eu havia pensado em ir, alguns dias antes, anotando o compromisso na minha agenda ilusória, repleta de cogitações, mesmo tendo conhecimento de que estar por entre vários outros seres humanos seria algo extremamente intimidante. Não saberia explicar o motivo disso: a minha timidez arraigada é como uma tradição comportamental inata, quem sabe até um aspecto irrepreensível do meu ser. Mesmo assim, naquela noite inquieta, eu estava disposto a debilitar os alicerces de minhas barreiras, invocando a vanguarda dos golpes no muro que me dividia em distintas Berlins.

Foi que eu cheguei ao local, pouco depois da primeira banda se apresentar. Esperava encontrar um número infinito de pessoas, mas, contrariando as minhas falsas expectativas, o público ainda era mínimo e esparso. Talvez porque fosse cedo. Talvez porque fosse rock.

Estacionei a moto num canto afastado, de propósito, e sentei-me num banco continuo que se alongava por toda a extensão da orla. Atrás, lá embaixo, águas misteriosas e repletas de lendas corriam em seu leito da direita pra esquerda, num ritmo incessante.  Dentro de mim, o coração ardia em inquietude. O corpo não se alinhava à paisagem. Os olhos não sabiam o que avistar. O palco estava tão distante, não poderia vê-lo com nitidez se acaso estivesse próximo.

Pensamentos torpes e ridículos começavam a manifestar suas intenções nefastas, provocando-me, pedindo para afastar-me dalí, me fazendo pensar na possibilidade de retornar para casa imediatamente. Por isso mesmo, naquele lugar, eu me corroia num desejo veemente de desistir. Senti-me só, novamente, não menos estrangeiro que antes. Mas eu estava solitário em meio aos demais, e em minha imaginação todos pareciam observar-me, percebendo o quanto eu me sentia deslocado.

Anunciaram outra atração. Alguém chamado “Erbetta” apareceu nos telões laterais. “Malibu Nightmare” emanava de sua guitarra. Eu ouvia aquela composição, sentado na minha distância, sem percebê-la. Notas altas flutuavam sobre o público. No entanto, apenas minúsculos grãos perturbados de medo pairavam inertes acima da minha cabeça. Despi-me da jaqueta, enfiando-a dentro do capacete. Mãos nos bolsos e fora deles e dentro deles, de novo, num movimento obstinado e quase involuntário. Pernas agitadas revezavam-se em posições diversas, a cada segundo.  Rio, orla, palco, música, poucas pessoas, entretanto muito mais do que eu costumo ver diariamente num único espaço. Ora, muitos estímulos para minha mente aflita processar. Um nó se fez na garganta. Tensão. Confusão sem tristeza. Convulsão silenciosa e tímida desenvolvia-se em minutos agonizantes. Eu ali permaneci, condenado àquela prisão interior, oprimido pela quimera de todos os meus medos.

Ao final do “Pesadelo”, uma luz amarela acendeu-se no alto do palco, simultaneamente dos dois lados, iluminando o público abaixo, anunciando uma próxima canção. E nesse instante difuso naquela noite baiana, o vento frio soprara uma vez mais, de súbito, trazendo consigo diminutas porções de água em partículas dispersas, que se desprenderam das nuvens e caíram no meu rosto sem aviso.

Catarse. Aquele foi o instante do meu despertar. Foi então que lembrei-me do escudo e da espada e isso bastou para que fossem exorcizados os absurdos temores que até então me corrompiam. Levantei-me, e andei sem medo para perto da música e das pessoas que a ouviam. Foi o primeiro, mas não único golpe no muro.

O restante da noite transcorreu numa tranquilidade absoluta. Conseguia respirar normalmente, e à medida que o ar penetrava os meus pulmões, purificava-me e expurgava qualquer vestígio de dúvida ou timidez exagerada que se achava em meu interior. Encontrei-me inesperadamente com amigos da faculdade, ou eles me encontraram sem me procurar, e apreciei a sua companhia pelo tempo que compartilhamos naquele ambiente, aquela ocasião. Conversas sobre nada, sobre o essencial, palavras emudecidas, abafadas por risos. Estar por entre amigos me deixou ainda mais sereno, auxiliando o equilíbrio do meu ânimo e aliviando a dor que a sofreguidão anterior provocara.  O muro tremia em seus estertores. 

Voltei com os outros para o banco contínuo. Toda a orla situava-se num ponto mais alto, o rio corria alguns metros abaixo, suas margens situavam-se após uma curta faixa de terra nua, esquivando-se dos olhares mais desatentos, imaginando ser possível disfarçar a sua presença. Estávamos ali sentados a contemplar o vazio, enquanto Aleluias entoavam suas canções, permeadas de um ritmo ritualístico característico, como cantos vindos de uma senzala, mesclados à música popular brasileira. Neste meio tempo, uma chuva esperada começou a cair, constante, porém discreta, tênue, turvando com delicadeza as águas escuras do rio, que refletia as luzes coloridas do mundo nas suas proximidades. Mais ao longe fez-se uma neblina sutil e o frio continuava, como um adjetivo incomum a descrever aquela noite sertaneja. Mesmo assim, toda ela estava repleta de detalhes.

Ritmos oriundos da tradição africana retumbaram dos tambores e vozes do Ilê, enquanto a chuva se avolumava sobre nós. Um momento conveniente, não que fosse necessário, para uma bebida de incontestável teor alcoólico. E a partir de então houve cachaça em copos de plástico, degustada com gosto até quando o líquido se esvaiu por completo do interior da garrafa, mais tarde, no fim de tudo.

Com os cabelos molhados, fui para próximo do palco e ouvi “Eddie”, finalmente, uma atração tão aguardada por todos naquela noite. Vi os braços erguidos vibrarem no ar ao final de cada nota arremessada na escuridão. Sóbrios ou ébrios dançavam sob lágrimas celestes e ritmos regionais incorporados ao rock, numa fusão exclusiva e harmoniosa, inédita aos meus ouvidos. E foi assim, até que tudo acabou.

A chuva parou antes do fim, o vento frio não cessou. Todos os sons silenciaram. A noite morreu nos últimos cumprimentos. Atravessei a ponte sem a proteção da jaqueta, cujas mangas amarrara em torno da cintura. Petrolina assomou a frente, acolhedora na madrugada. No caminho, parei numa esquina qualquer e te telefonei, para diminuir a tua preocupação, avisando-lhe que logo estaria em casa, sem medo algum como companhia clandestina. Algumas curvas adiante e eu estava de volta ao lar, para dormi um sono tranquilo do lado ocidental da muralha.

O martelo venceu os blocos de concreto deste muro de medos, pelo menos essa noite, mesmo percebendo que em minhas mãos irá ressoar com ira muitas vezes, a estilhaçar tantos outros pedaços duros de desolação, pois enquanto houver vida em mim, haverá paredes insensíveis e segregantes para tombarem em ruínas.

Um Acróstico

Posted: terça-feira, 29 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Disseram-me uma vez, que anjos habitavam os céus, que de sua morada divina jamais desciam para junto dos homens. Contudo, daquela distância intransponível, seus olhos nos guardavam de todo o mal, banhavam de luz os caminhos escuros, aqueles inevitáveis de desviarmos, cobriam nossas vidas de escudos sem ao menos nos tocar.

Eu não poderia entender o que as palavras me diziam, pois não conhecia a face de um anjo, me deixei convencer que se haveria de encontrar um desses em vida, eu não o reconheceria. Estava enganado. De fato, acreditava que eles estariam exilados na casa de Deus, porém, às vezes, gostava de pensar que eles dançavam entre nós, seguiam suaves os nossos passos, sussurravam bondades aos nossos ouvidos. Sendo assim, eu poderia conhecê-los.

Junto de mim pousou o desejo de vê-los, a busca por aqueles olhos de bênção e graça me possuiu. “Quero ver os anjos”, dizia a mim mesmo, sem saber se era possível ou que me coubesse o direito de vê-los.

Assim, mesmo encobertos ao meu olhar, soube que sob a sombra da sua bondade eu vivia. Debaixo de asas invisíveis eu descansava.

...
 
Então eu os busquei: anjos nos olhos do mundo. Por vezes as pessoas me sorriam, eu quase nunca sorria de volta, Elas se assemelhavam em bondade e pureza, mas eram humanos, não eram os seus olhos aqueles os quais sondava. Os dias passaram, foram indo morar com o passado, os olhares não mais se alegravam com a mesma facilidade, tornou-se difícil encontrar esses guardiões, ocultos por entre de nós.

Um pensamento triste, logo o medo me tomou a mente. Seria a minha busca uma procura em vão? E por conta de um longo tempo sem frutos, cansei-me de minha jornada. Certamente, não haveria anjo algum para ver. Tudo aquilo em que acreditei se esvaiu e aos poucos deixei de acreditar.

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As folhas das árvores caíram com o outono. Outros dias se sucederam aos anteriores, no jardim da minha casa já não havia árvores quando outros outonos chegaram. O vento me levou com aquelas folhas, as quais se desprenderam de plantas que existiam somente em lembranças. Finalmente, esqueci-me dos que me protegiam. Tornei-me incrédulo e perdido  em sombras, como uma noite que nunca acaba.

Mas houve um tempo em que a Esperança me cumprimentou de longe, acenou pra mim, cabisbaixa, e o desejo de outrora retornou: buscaria os olhos dos anjos novamente, com a força que aquele aceno me proporcionara. Entretanto, agora em meio ao ânimo renovado, fez-se a dúvida:

Onde se esconderiam aqueles que me amam, estariam mesmo tão distantes de mim? Foi que veio a Esperança para mais perto e me disse: Aquilo que nos é mais importante não se afasta para longe de nós, mas às vezes está perto demais para que possamos percebê-lo. E com essa resposta vaga eu retomei a minha busca.

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Voltei-me, descrente, aos olhares dos homens. Muitos deles tornaram a sorrir, apesar das dificuldades, dos desenganos que lhes ocorreram, eles sorriam. Atrevi-me a sorrir de volta, e para a minha surpresa, o sorriso encontrou outro para retribuí-lo. Nesse momento entendi então toda a verdade, aqueles a quem mais buscava estavam ali, sempre estiveram, nos recônditos de um sorriso sincero, de um olhar humano.

Os anjos moram no coração dos homens, eu descobri. Eles nos vêem com nossos próprios olhos, por vezes choram lágrimas por nós, e principalmente sorriem com o nosso sorriso. Entendi que eles carregam conosco as nossas dores, nos dão forças quando necessitamos, nos momentos em que já nem sabemos de onde elas brotam, mas preferem se alegrar e aquecer o nosso peito quando amamos.

Corações cheios de anjos, eu descobri. Anjos que se refletem em olhares. Não são os céus a sua morada, mas o interior de cada um de nós. Essa é a minha esperança, a minha fé, o meu amor à vida está nessa verdade.

Em muitos momentos do dia, eu me pego te imaginando, você que, mesmo distante, já possui o meu coração e o meu amor. Imagino os contornos do seu rosto, o traçado do seu sorriso e sobre o que eu lhe diria se nos víssemos. E o mais importante, passo horas a me perguntar: o que eu veria nos teus olhos? Pois, em pensamento, não encontro palavras para descrever o que neles se desenha. Diria somente que no seu olhar estão os meus anjos, é nele que se esconde a paz que eu almejava. Todos os anjos que busquei estão contigo. Eu finalmente os encontrei.


Com amor
De Bruno Ricardo
para "Dêzinha"

Petrolina, 16 de Julho de 2009

Sétimo Dia

Posted: segunda-feira, 28 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Aconteceu numa sexta feira, enquanto ouvia-se o murmúrio de um sol agonizante e as luzes amareladas e indistintas daquele fim de tarde brilhavam bruxuleantes por sobre os telhados das casas. Havia um frágil silêncio no mundo. Havia pessoas simples usando as suas melhores roupas. E por um breve instante o vento soprou timidamente, uma aragem quase imperceptível aos sentidos menos atentos, fazendo oscilar os galhos mais jovens da algarobeira. Prosopis algarobilia, fulgurante em frente à pequena igreja de paredes brancas, abraçava com sua presença os que ali lentamente chegavam.

Eu via da minha casa aquelas pessoas comuns, desde o momento em que vinham, vagando calados, sozinhos ou acompanhados dos seus, surgindo de todas as ruas do vilarejo, caminhando sob o luzeiro do poente, passos acanhados pelo chão de terra seca, que a muito perdera a umidade conferida pela chuva que viera sem avisos em noites passadas.

O meu quintal sem muros dava para a praça inexistente onde firmava-se a igrejinha, abrindo-se diante de mim num panorama singular, me permitindo acompanhar o movimento tênue das pessoas e o desenrolar dos acontecimentos mais efêmeros que ali se apresentavam. E embora eu permanecesse em pé naquele terreiro nu, meu pai, que ainda não podia andar normalmente, me pediu uma cadeira e sentou-se ali para acompanhar a missa à distância, ao meu lado.

Logo um pequeno sino dobrou tristemente, soando incontáveis vezes, um convite intuitivo às preces que se sucederiam. O crepúsculo era sua hora, o intervalo perfeito no qual compete uma súplica. E conforme os anjos se deitavam naquele instante os homens despertavam para a noite precoce, encontrando-se inevitavelmente com a sua tristeza, anunciando seus pesadelos vindouros.

Então fez-se pequenos grupos, amigos e conhecidos envoltos em um silêncio entremeado de cumprimentos fugazes. Em contrapartida alguns entravam apressados, para sentar-se nos poucos bancos de madeira da capela. Algum tempo depois e o sacerdote iniciou a missa, então os pequenos grupos se desfizeram intuitivamente, ainda em sigilo, e aqueles que puderam ocupar algum espaço vazio da igreja o fizeram. Esses eu não pude mais observar, somente os outros poucos que permaneceram em pé, do lado de fora.

No interior do templo, aglutinados em um pesar comunal, fez-se entre eles um lamento. Cânticos de louvor ecoavam por entre filhos e pais consternados. Orações foram encaminhadas à eternidade. Não era necessário estar próximo para ouvir os sussurros lúgubres escondidos naquelas vozes. Uma semana se passou desde que seus entes queridos perderam a vida num trágico acidente. Sete dias definharam numa morte agônica e a ausência física não é menos perturbadora agora. Tal qual um monstro abominável, esta falta incomensurável daqueles que um dia existiram, esta nostalgia alvoroçada persegue impiedosa os que ficaram para trás, pois foram apartados violentamente de quem tanto amavam.

Nada mais havia a se fazer naquela hora, somente partilhar a melancolia que a morte dos nossos semelhantes provocou por entre todos.

E assim, transcorreram os ritos, as vozes dos cânticos e preces envoltas em lágrimas contidas. A missa terminara e as pessoas precipitaram-se para fora daquele recinto sagrado. O meu pai me fez um cumprimento, comum ao final das missas cristãs. “Paz de Cristo...” ele me disse, apertando a minha mão. Prontamente eu o respondi. Então, ele levantou-se devagar e entrou em casa, deixando a cadeira onde estava sentado no mesmo lugar, sem dizer mais nenhuma palavra. Eu também resolvi entrar. Já anoitecera e sem que eu percebesse havia sombras escuras no céu insensível. Senti frio e um profundo pesar. Virei de costas para o largo da igrejinha e o que aconteceu em seguida omitiu-se no mistério daquela noite jovem. Porém uma última visão me assombrou antes do fim.

Por cima do ombro vi um filho que dirigia-se para casa sozinho, apressado. Por alguma razão, aquele rapaz saiu antes de todos ali. Talvez houvesse nele uma esperança infundada de encontrar o seu pai no caminho, vivo, para que este pudesse consolá-lo. Ou tivera renovado por instantes a possibilidade de despertar de um sonho ruim. Mas o seu olhar perdido naquela escuridão prematura o denunciava. Então eu percebi que ele sabia que encaminhava-se sem escapatória para um único e inevitável destino: a sua dor infinita.

Meu olhar o acompanhou por um instante. Depois não tive mais coragem de fitá-lo.

O Prólogo que atrasou-se

Posted: terça-feira, 22 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Não me comprometo a dizer exatamente qual a minha intenção ao criar esse espaço. E não diria que o criei, perdoe-me, porque agora mesmo percebo que todos os espaços são preexistentes e nós, como bons colonizadores que somos, apenas nos ocupamos deles.

A saber, sou somente a sombra de um garoto humano: um menino preguiçoso porém pretensioso, num nível elevado para as minhas poucas e desconhecidas habilidades, para as minhas potencialidades ainda ocultas nas brumas da divagação.

Tentando me justificar, digo que é provável que a pretensão seja fruto do descaso ou mesmo da minha preguiça, esta companheira imoral, ou quem sabe seja característica inata à faixa etária. Mas tentarei acalmar o ego, o deixarei quieto, sentado num canto da sala, com os olhos voltados pra uma parede qualquer. Aqui ele não falará, espero.

Pouco sei das coisas do mundo, admito, pois a transição é uma fase difícil da vida, as experiências são escassas e vagas e, em minha timidez, tantas vezes eu as evito, que não se aprende muito vivendo assim. E, sendo uma transição, afirmo que a minha confusão é tamanha que, para onde quer que eu esteja indo, confesso que sequer me lembro de onde eu parti. Assim, nesse meio sofrido por onde caminho só me resta especular sobre tudo e todos, depois sobre mim mesmo, na tentativa de entender as menores questões circundantes.

Nesta desolação infinita eu habito. Este é o local confuso onde me encontro no momento. Por companhia diária tenho a perversão solitária desses dias que correm, se vão numa terrível rapidez.

Por isso mesmo, face a essa efemeridade, sob a forma de palavras ou disfarçada em outros meios que esse mundo multimídia nos oferece, expresso aqui a minha empobrecida visão sobre o que me rodeia exteriormente e talvez sobre aquilo que perturba o meu interior juvenil, já não tão jovem assim. E sendo a minha visão, é possível que eu esteja enganado.

A mim pouco importa as regras do “escrever bem”. A gramática falha quando o coração quer se expressar. Há poucas palavras inventadas para dizer aquilo que é surdo aos ouvidos e a mente, mas que soa musicalmente inteligível ao espirírito. Logo, não me culpe se as idéias aqui não fizerem sentido, porque é desta forma que elas se apresentam a mim. Esta sinceridade é a minha intenção fundamental. As minhas verdades são confusas, muitas delas são mentiras, mas eu as mostrarei em sua essência.

Isso mesmo! Agora sei o propósito de tantas letras: aqui pretendo vomitar meus atuais pensamentos, produtos dessa convulsão existencial em que vivo.

Portanto, se as palavras apresentarem-se em uma repetição infantil, se os termos tornarem-se contraditórios, nunca vulgares, e a coerência morrer no vazio, por favor não me julgue mal. Não gosto de estudar, não me preocupo com nada além da forma. Para mim, o conteúdo racional é irrelevante, porque os homens são máquinas de sonhar e amar. A razão é contrária a natureza humana, se não totalmente, mas em boa parte. Logo, não seria diferente aqui: expressarei  abertamente o meu descaso quanto ao pensamento mecanicista, nesta tentativa de dar forma escrita aos meus devaneios.

Por favor, não me cobre respostas ou me maltrate por admitir isso. Juro que não sou nenhum insano, tampouco assassino desta língua, herança latina de além mar. Por nada disso me condene, pois sou de antemão o carrasco de mim mesmo, sendo somente eu, o fantasma sem talento de um escritor suicida. 

"Eu sou apenas a mão que escreve"

A Balada da Abóbora e do Sapinho - Um conto de ninar para adultos

Posted: quinta-feira, 17 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Vivia na escuridão de um pântano frio, um sapinho de pele esverdeada. Sozinho naquela desolação, ele vagava por dias inteiros, a caminhar alheio pela imensidão úmida dos arredores, como se o seu coração buscasse por nada, durante toda a sua vida. Seguia os seus dias, alongados por horas sem fim, escondido nas sombras de sua tristeza e infelicidade inomináveis.

Perdia-se constantemente em pensamentos torpes, refletindo neles ressentimentos que guardava como resquícios dos seus pecados, de suas terríveis memórias de tempos idos. Aos seus olhos, sua dor parecia irremediável, o sapinho sofria de males da alma, portanto nenhum remédio mundano poderia curá-lo.


Os campos úmidos daquele pântano estendiam-se a sua frente, desesperadamente, até onde a vista alcançava. Tantas vezes esteve perdido naquele horizonte infinito, que em sua quietude não podia fazer nada além de respirar, deitava-se de costas sobre o chão duro e por lá ficava, seguidas noites em claro, de olhos fechados mas vagando em sonhos despertos, no intuito de esquecer-se do amanhã inevitável. 


Porém, por alguma razão desconhecida, havia nele um traço sutil de esperança que nunca se esvaia, contrariando a sua vontade e a sua lógica pessimista, pois até nos momentos inertes, quando nem mesmo o ar se movia a sua volta, havia uma voz que sussurrava, repetia em seu interior, lhe dizendo que algo bom lhe aconteceria. E a essa vaga promessa ele se apegou, perdido naquele mar de silêncio, naufragado na sua ilha de tristeza e agonia, ele permaneceu por um tempo longo e desconhecido encarcerado em si mesmo.

Havia a muito tempo, numa planície próxima ao mar ocidental, uma plantação de abóboras, todas de cor laranja, como pequenos sóis no crepúsculo presos a terra. Mas essa era uma plantação incomum, pouco tempo durou, pois certa feita, todas aquelas estrelas laranjas haviam murchado repentinamente sob o jugo de uma praga avassaladora, apodreceram em instantes voláteis, servindo de alimento para animais e vermes e o solo, de súbito, tornou-se infértil. Contudo,  muitas eras após o ocorrido, somente uma abóbora frutificou  novamente em meio aos ramos infrutíferos ao redor que, infelizmente, mesmo aos melhores cuidados,  viveram, porém nada mais produziram com o passar das estações. 

Entretanto, desconhecendo a história anterior que aquele campo contava, mas que não presenciou, ela especulava que antes de existir ou antes que tivesse visto o mundo acordar,  que por algum descúido do destino já houve abóboras naquele campo, então retiradas precocemente do círculo da vida, quando ela, a derradeira a brotar, ainda era em forma de flor. Buscava em sua mente uma resposta clara, uma lembrança esquecida que a conduzisse a verdade, mas disso ela não tinha certeza, e nunca obteve a solução. do seu enigma. Assim, em seu dilema diário, sentiu-se encerrada em uma solidão mais que profunda, aquele fruto da terra, ainda jovem, colorido e belo, um ponto distinto em meio à unanimidade verde e estéril das plantas vizinhas. 

E por dias intermináveis sentiu-se só. Pássaros a visitavam, lhe cumprimentavam após a aurora, mas logo voavam para longe, perdendo-se no firmamento, a fim de cuidar de seus afazeres de pássaros. E novamente, o campo lhe parecia um espaço demasiado extenso para uma única abóbora habitar. Sob um céu virgem de nuvens, ela se perguntava a todo o momento, o que haveria de existir além daquelas plantas. Do lugar onde vivia, avistava constantemente as águas do mar, em glória imaculada, formando ondas distantes que vinham e vinham, enfraquecidas, desfazendo-se suavemente na perdição das areias da praia. Ocupava-se até a exaustão na tarefa de observar o verde das águas salgadas, a ela mais aprazível que o verde daqueles campos inúteis.

E lá ela permaneceu, isolada em lágrimas, na dúvida que vinha com o inverno, quando sequer havia pássaros, mais intensamente sentiu-se isolada, sua alma atirada a distância da companhia daqueles que mais amava sem conhecê-los. Os sóis de outrora presos ao chão, a muito deixaram de ser, e sua suposta existência diminuia em um questionamento irresoluto. Agora e sempre, novamente, sentia falta de alguém que não há.

Mas havia o mar para ser admirado, como um rei sentado em seu trono, no interior de um castelo, no alto de uma montanha, com flâmulas trêmulas ao sopro dos ventos, vermelhas de bordas douradas. Pensar na possibilidade que haveria de encontrar a paz e a plenitude além dos campos e daquelas águas lhe servia de conforto e lhe acalmava.

Ambos pertenciam a mundos distintos. O campo e a plantação próxima à praia pertenciam a uma terra remota vista do pântano, perdido em distância, do outro lado do soberano mar. Tão longínqua que imaginava-se ser lendária, produto de mitos e fábulas antigas, quando tudo era bom. Porém, de alguma forma, era esse mundo bom e imaginário muito melhor que a realidade, tanto do pântano quanto do campo. A natureza das coisas era perfeita, mas perecível e frágil. Somente nos melhores sonhos despertados pelos mitos a vida fluía como nos primeiros momentos da existência, em liberdade e possibilidades inatacáveis, tudo é possível onde permeia a verdade antes sonhada com paixão e sinceridade nos dias de nossa primeira infância.

Aconteceu que em uma certa ocasião, rumores vindos dos cantos do mundo falaram ao sapinho e a abóbora que ambos compartilhavam da mesma vida, de dores diferentes mas também dos mesmos desejos e esperanças.

A lua que sorria a noite em um céu pontilhado de estrelas era a mesma que os olhares dos dois acompanhavam, logo era ali que seus olhos se encontravam, naquelas miríades de jóis celestes, no sorriso de uma lua clara e brilhante suspensa no céu. O ar que vinha dos pântanos um dia soprou no mar próximo aos campos e a plantação, tocou o lindo rosto da abóbora e agora acariciava a face imunda do sapinho. A terra que pisavam era segura e inabalável, cobria todo o mundo com a sua firmeza, portanto cada passo era sentido como se tivesse um único dono, confundindo-se uns com os outros. A chuva que vinha sem aviso molhava os campos e as folhas verdes da plantação de um só fruto, da mesma maneira atravessava o mar e morria sobre o coração vazio dos pântanos. 

E a luz do sol, desde seu primeiro instante sobre a terra, até o momento em que deita-se no seu leito ao oeste do mundo, queimando vermelho e púrpura no horizonte, iluminava igualmente os dois personagens em seus reinos insólitos.

Eles perceberam isso, e desde então passaram a dividir sonhos, partilhar alegrias e tristezas. Juntos à distância, esqueceram-se da dor, pois descobriram o quanto existe além das sombras e da inquietação provocada pela ameaçadora incerteza, perceberam que possuíam muito mais em comum e as diferenças viravam pó, esmagadas por um sentimento que os detinha em unidade e pureza. 

Quando perdidos em sonhos divididos, eles se tocavam e se descobriam, as mãos encontravam o corpo um do outro, os corpos se alinhavam num abraço sem fim, as bocas se aproximavam numa dança lenta, desejando encontrarem-se num beijo, então já não eram sapo ou abóbora, o feitiço que os fizera assim, desde o princípio, havia os deixado por completo. Agora eram homem e mulher e toda a distância entre eles se extinguia, vencida pela força maior que veio de um amor menino, nascido no berço da desolação. 

Então chegaram os dias do Rei e toda a dor e solidão foram esquecidas. Ambos estavam livres da derradeira maldição que lhes acometera. 


... 


Partilho contigo a mesma luz do sol, o mesmo brilho da lua, o mesmo ar e mesma terra em que piso e até a mesma distância que nos separa. Mas, compartilho o mais importante contigo, esse amor verdadeiro e sincero, que me faz querer você, mais que a luz do sol, mais que o brilho da lua, mais que o sopro do ar e a firmeza do chão. Nossa distância é física, mas como eu poderia estar distante de alguém que mora dentro de mim, no meu coração? 

“Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção.”

Sociedade dos Poetas Mortos

Posted: quinta-feira, 10 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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“Colham logo os seus botões de rosas, pois o tempo está correndo.
Esta flor que hoje sorri cheirosa amanhã estará morrendo”.


O trecho do poema de Robert Herrick, lido no ínício da primeira aula do professor John Keating (Robin Williams), pode ser traduzido literalmente pela expressão latina “Carpe Diem”, cujo significado é “aproveite o dia”.

O despertar da consciência sobre a finitude de nossas vidas materiais, porque ao final de tudo, somos invariavelmente “alimentos para os vermes”, e do simultâneo desejo por tornar extraordinária a nossa existência mundana, são as intenções escondidas nas entrelinhas dessa expressão. Este é o legado dos Poetas Mortos, os alunos de outrora da Welton Academy, deixado como herança a todos os outros subsequentes a eles.

Esta é a idéia central do filme, apresentada então num contexto de confronto entre uma educação escolar e familiar tradicional e ortodoxa e a metodologia de ensino heterodoxa de um professor de Inglês substituto, que instiga os alunos a viverem intensamente enquanto ainda lhes resta os dias de sua juventude. 

O estandarte onde se lê “Tradição”, carregado por entre as fileiras de jovens e suas famílias, durante a cerimônia de boas vindas aos estudantes da referida escola preparatória, se apresenta como símbolo do modelo da educação falsamente aceita como ideal para a formação dos alunos naquele contexto. Neste mesmo, despreza-se a idéia de que a educação nada mais é que um meio para que todos aprendam a pensar por si só, e não tornarem-se meras máquinas de replicar conhecimentos, impostos sob um regime de regras castradoras, normas e valores conservadores .

Desse modo, ao considerar os perigos da conformidade, o filme afirma que, em certas ocasiões, é necessário que os jovens lutem pelas suas paixões, ou que ao menos as despertem dentro de si, pois as consequencias causadas pelo impedimento, familiar ou escolar, de se fazer aquilo que se deseja podem tornar-se trágicas. 
 
Portanto, aproveite a vida, ela é frágil e breve demais para ser ignorada.

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