Overdose melancólica deliberadamente provocada

Posted: quinta-feira, 15 de julho de 2010 by Bruno Ricardo in
0

É preciso uma dose esporádica de tristeza, a quantidade exata capaz de causar uma cegueira momentânea, para nos perdermos nas nuances da realidade, voltando os olhos para mundos interiores. E por esse caminho, assumimos o caráter de expectadores de nós mesmos, diante de uma dor simulada ou uma tristeza passageira, febre de tardes inteiras, que concede a oportunidade de nos abstrairmos da vida humana tangível.

É necessário, talvez um dia ou outro durante a semana, ouvir qualquer palavra sobre coisas perturbadoras que nos metem medo. Entorpecer os sentidos com sentimentos de um pesar indescritível, sentir todas as dores do mundo concentradas num único ponto.

Nesta hora, é possível emergir na memória lembranças perturbadoras de momentos únicos, quando atravessamos o âmago da agonia e de lá saímos desfigurados.

Quem sabe ouvir músicas tristes, ecos de melancolias alheias, nos proporcione um conforto amargo. Senão, notas musicais serão justificativas plausíveis para o pranto que fatalmente se desenrola. “The Drugs Don’t work”, uma opção para uma desculpa perfeita, disfarçada em sussurros acústicos vindos de alto-falantes estereofônicos, é capaz de atirar a alma no vazio dessa existência.

Por alguns instantes, sintam-se como aqueles habitantes das ruas, colecionando moedas e restos como sopros necessários de oxigênio. Vivendo debaixo das sombras das pessoas que deveriam ser, agonizantes nesse simulacro de ausência de humanidade. Sejam como os filhos do homem, que dormem sob o descaso de um céu de estrelas insensíveis e cobrem-se com a nossa indiferença costumeira. Em segundos, perder-se-ão em suas lágrimas, escorrendo adiante nos seus leitos rudes, onde dormem as raízes de concreto das cidades.

Percebam quando os dias escurecem prematuramente e a nossa vida se esvai nas voltas dos ponteiros do relógio. Cada minuto contém em si passado, presente e futuro, num ciclo de inevitável sofrimento. 

Bombardeados pela radiação invisível e incessante vinda de tubos de raios catódicos, monitorados conscientemente por tecnologias fúteis nesse mundo de cronômetros e compromissos indissolúveis, notem que toda a informação que nos chega é derivada do caos. Compartilhamos o mesmo monóxido de carbono nessa asfixia coletiva. Olhamos apáticos o céu cinzento desses últimos dias. Perdeu-se a nossa vida na automação dos cumprimentos diários, nos sorrisos fingidos que por vezes tornam-se máscaras de opiniões oblíquas. Aparentamos uma surreal satisfação no toque insensível de periféricos variados. Mãos acostumadas à matéria artificial deviam, entretanto, sentir o calor de outras mãos mais constantemente.

Quando as quatro paredes do quarto nos fecham numa gaiola e os blocos quadrados de gesso do teto ganham nomes próprios, dentro de nós haverá menos luz, mesmo sendo dia lá fora. Tanta lágrima e somente dois olhos para vertê-las. Quando se sentir atrasado, antiquado, diferente dos outros e tua liberdade diminuir na ausência de conformidade mundana, restará perceber-se sozinho, escrevendo frases curtas e sem coesão, dissimulando um falso entendimento.

Então conseguimos. Perseguidos pela irresistível tristeza, predadora de nossa identidade, nos vemos acuados num vale escuro, onde todos os cantos são inexploráveis, mesmo visitados em outras tantas ocasiões oportunas.

Agora, não há o cheiro familiar de flores azuis em um jardim perdido no futuro imaginário. Quatro semanas são apenas pedaços indistintos de uma eternidade. Suspiros são vírgulas dessa crônica de dicotomias. E vagando nessa pequena amostra da morte, procrastinar se constitui no último recurso dos desesperados, na tentativa diária de assassinar sonhos, então considerados absurdos demais para serem realizáveis.

E nessa dança contínua, a saudade, de alguém que se foi de repente, nos deixando para trás, despidos numa terra selvagem, percorre o ânimo, graciosa em seus passos principiantes (Lembro-me bem daquela noite, meu irmão, pois foi a primeira, talvez a última vez que li “O Chamado de Chuthulu”. Maldito Lovecraft, que manchou a minha memória com aquela frase impronunciável).

Talvez esse sentimento lúgubre, seja a condição que nos aproxima em unidade. Essa mesma aflição que domina o peito de reis arde igualmente nos corações mais plebeus em noites frias de inverno.

Quem de nós está imune aos mais fúnebres aspectos da existência?

...

Desperto. O que aconteceu, afinal? Minha mente vagou nesse raciocínio por um tempo indefinido. Acordei, talvez, devido à horrível sensação de cansaço que a melancolia provocara. Lembro-me que agora a pouco era tarde, mas já a algum tempo Tilion atravessara o tempo e conduzira Isil pelo teto celeste.

Um banco de madeira sobre a praça e uma catedral gótica a minha frente, torres brancas e imponentes rasgando o véu da noite. “Não sabia que os homens podiam construir algo assim”. No absoluto, um claro som de metal se apresenta nesse silêncio urbano. Sinos avisam que já passa das nove horas. Um refrigerante de limão e algumas porções de snacks crocantes, isentos de gorduras trans, não me trazem consolo. Não há mais ninguém neste lugar. Somente eu, mesclado a minha confusão, um amálgama de agitação e torpor que aos poucos vai minguando o seu potencial. Sai ileso dessa overdose de angústias. As idéias demoram a apaziguar-se na mente, povoada de ilusões dispersas, tal qual os restos de prédios e casas destruídas após um severo bombardeio. E no instinto natural, a razão me permite recordar os dizeres de Schrödinger, vagando nessa desordem cognitiva:

“O que é isso que lhe chamou tão repentinamente do nada para desfrutar por um breve tempo um espetáculo que permanece bastante indiferente a você? As condições para sua existência são tão antigas quanto às pedras. Por milhares de anos, os homens se esforçaram, sofreram e procriaram e as mulheres deram à luz em dor.

Cem anos atrás, talvez, outro homem – ou mulher – se sentou neste ponto; como você, ele contemplou, com temor e receio no coração, o morrer das geleiras. Como você, ele foi criado de um homem e nascido de uma mulher. Ele sentia dor e breve alegria, como você sente.

Ele era outra pessoa? Não era ele você mesmo?”

Sinto a minha insignificância diante da incompreensível vida, limitada em si mesma pelos mistérios de suas arestas. Um ponto ínfimo e único do universo. Bem assim, destituído de evidente importância, me torno imagem fiel de toda a gente que compõe essa Terra.

Sou um pescador sentado em sua jangada sobre as águas do mar. Sou um negligente líder de uma nação qualquer. Sou o choro de uma criança solitária, desolada por anseios infantis não realizados. Sou o cadáver revelado, flutuando na imundice. Eu sou você, que agora lê essas palavras desordenadas. E você é a humanidade.

Image Credits: HelloMyNameIs8D

0 comentários:

Related Posts with Thumbnails