Sunset: "O crime maior do homem é ter nascido"

Posted: quinta-feira, 26 de maio de 2011 by Bruno Ricardo in
0

Aos fins de tarde o cansaço recobre-me com a sua pesada malha. Toma-me o espírito, entorpece-me com o rubor dos olhos em chamas, deixando o meu corpo arrastar-se pela rua, frio e morto esgueirando-se em contorções involuntárias, durante a longa jornada na qual uma força estranha conduz-me inconsciente até a porta de minha casa. 

Um corpo sem alma, um bêbado louco a vagar pelo mundo dos homens bons, a mancha escarlate nas vestes da virgem, esse sou eu aos fins de tarde ou seria eu durante toda a vida, o ocaso em suas luzes amarelas banhando as últimas horas antes do morrer da estrela vespertina. 

Pudesse também extirpar-me no horizonte, abraçado ao astro em sua majestade, quisera eu extinguir-me em laranja e púrpura, cobrindo os céus com o sangue de minha carne inútil.

O portão de ferro abre-se em silêncio, velando pelo morto que adentra. Passos trôpegos seguem-se a outros e outros poucos, até o quarto escuro. Desde cedo as últimas luzes abandonaram esse lugar. Agora é quente e abafado o ar deste cômodo onde durmo, qual interior de um túmulo a abrigar o meu cadáver. Está contradição absurda contrastando-se à aridez fria de minha existência, pois a ausência de vida roubou o calor de meu sol, deixando-me solitário, perdido com as estranhas vozes a me perseguir, chocando-se em ecos interiores e inevitáveis feridas.

Desejo a cama, mas nunca a terei, tais quais tantas outras coisas que os dias me negam. Será meu esse engodo, essa falsificação do ser, por poucas horas, ocupadas então com um único propósito: o não ser. Torturei-me com angústia desde menino, agora sou homem e deixei de aprender. O que me concede, vida humana, coisa qualquer capaz de alegrar-me ou fugazes esperanças que a nada resistem? Será assim, sempre esse pesar que mal cabe em minha alma? Por que me fizera para viver afastado do júbilo, proibindo-me o desfrute das alegrias comuns a todo moço vivente? Sou eu que devo ser sacrificado? Por qual causa? Injustamente, não me criara belo e agradável como todos os outros e este é motivo o suficiente lógico para retirar-me do palco. Ah, estou sem ânimo sequer para entristecer-me.

Estou muito cansado. Aqui, preso na torre de marfim. Não há janelas ou portas ou o barulho do mar. Não há amor ou ódio. Não há esperança.

Gostaria de fugir para o infinito, meus olhos cegos a guiar-me. Dizer adeus ao meu povo e despedir-me desse mundo, levando comigo apenas o nada que sou.

Mas acredito ser isso impossível. Viverei cem anos, a expiar os meus pecados desconhecidos, agonizando nesse mundo onde as possibilidades são blefes da vida, a enganar-me, enganar-me, enganar-me.



Image credits: here

O Assassínio de Bruno Ricardo S. Costa

Posted: sexta-feira, 13 de maio de 2011 by Bruno Ricardo in
0

O quê significa ser verdadeiramente inteligente?

Por que a abominação ao esforço necessário?

Por que o excesso de fantasias mentais, sabotando a realidade?

Por que motivo encontro-me neste mundo? Será que todas essas distorções de comportamento são expressões do acaso natural? 

Coisas que eu não sei definir ou explicar o sentido, conceituar, de modo simplista, que proporcione entendimento, quem sabe a mim mesmo.

Por que, eu, sempre impelido à mentira? Por que não sou bom o suficiente, sequer para amar?

Quem sou realmente? Essa capa de defeitos incômodos ou além disso há alguém digno de carregar um espírito? Dessa última afirmação, eu duvido da veracidade.

Quem sabe eu estou destinado a grandes coisas ou ao total fracasso, opção mais realista que a anterior?

De onde vem tanto sono, tanta preguiça? E esta inércia moral que me torna diferente de todos os outros. O que realmente impede-me de ser, satisfatoriamente, um ser humano?

Sou filho do homem, mas sinto-me afastado do mundo, impulsionado por desejos que jamais se concretizarão. Sou filho dessa vontade, que se realiza em si mesma, que se alegra no não-realizar-se. Dessa busca obcecada por motivos, por planos, e o prazer quase espiritual em vê-los frustrados ao primeiro impasse nas negociações com a minha ínfima força de vontade, somente por saber que, dessa maneira, haverá outros planos para sonhar, apenas, outros sonhos para frustrar. Sempre foi assim. E eternamente permanecerei a ver os barcos no horizonte, rumo ao leste e a felicidade a afastar-se do cais, levando consigo pedaços arrancados de meu coração.

Saudades da minha tristeza. Eu poderia ter me transformado em poeta morto, na época em que a escuridão era mais escura. Mas não, tornei-me vazio, no fim. Vazio de tudo. Roubado de mim. As coisas são mais práticas agora, mas sinto falta de pitadas de emoções, mesmo emoções tão negativas quanto as advindas da minha depressão. Agora, essa é sinônimo de cansaço mental e físico, mas não de reflexão.

Qual motivo incita a minha hora?

Se há o conhecimento dos defeitos, das falhas, talvez basta conhecer as relações intrínsecas entre cada ponto, para fechar o círculo, entendê-lo enfim. E será o bastante para mudar? A quanto tempo não exercito minha mente com questões profundas. Meu estilo perdeu-se ou se transformou, sendo que eu preferia o anterior, menos prático que este eu dos dias de hoje. O eu moribundo, que corria solto por entre as lágrimas a jorrar sangue dos cortes nos pulsos.

Este escondeu-se do mundo.

Por favor, volte depressa, pois somente à dor de tua existência confiaria a minha vida.

E aos teus braços, nesse instante, entregaria-me em deleite à doçura da morte.


Image credits: here

Related Posts with Thumbnails