O Começo e o Fim

Posted: segunda-feira, 17 de janeiro de 2011 by Bruno Ricardo in
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Qual o tamanho da besta, a fera que assomou por sobre os montes na ocasião do nascimento das estrelas e desde então atormenta o coração dos homens, queimando-o em terror? Digo-lhes: sua imensidão é tamanha, devoradora de mundos inteiros. Formas amorfas de um inimigo constante, impregnado nas entranhas de nossos segredos, pairam sob a sombra de seu manto, a cor rubra e negra das lágrimas de sangue a cegar os proscritos filhos da terra.

Jamais imaginei deparar-me com tamanha desolação, o deserto vazio e infértil de meu coração solitário, perseguido até as bordas do infinito pela dor eterna e desmotivada, a qual se desconhece a origem de sua existência. O real invisível, o medo que me toma, roubou-me as forças desde menino, deixou-me órfão da casa de meus antepassados.

Eu, que tive a honra de andar sob a glória dos mortos, dos que sequer nasceram, e vi a luz branca dos primeiros dias de minha vida, fulgurante em um céu de maio. Eu que andei descalço sob campos de guerra, verdes em toda a sua extensão, então livres do cheiro das derradeiras batalhas. Eu que fugi do labirinto, voando ao lado de Ícaro, e o vi despencar do firmamento, em queda desesperada, acompanhada dos perturbadores gritos de seu pai. Eu que vi as estrelas a estibordo das naus da caravana, deslocando-se até o fim do mundo.

Agora restou-me o vislumbre de tua horrível presença, o temor mascarado do qual fugi, escondi-me em vão de tua ultraviolência. Pegou-me desprevenido e amarrou-me sem cordas à tua influência maligna.  A besta me envenena com suas palavras vis. Me impele ao precipício sem fundo, enquanto meus olhos afogam-se em lágrimas. O faz pelo prazer doentio de sentir o desespero dos condenados ecoando em meus murmúrios. Monstro pagão imundo! Não existem palavras na língua dos homens capazes de exprimir o ódio crescente, habitante do meu peito, exclusivamente direcionado a ti, aberração!

Se com a minha morte se fizesse também a tua, coisa nefasta, de bom grado doaria a minha carne às aves carniceiras e aos vermes ocultos no interior do chão, bem como a minha alma entregaria aos rios ardentes do Tártaro, somente para sorrir, enquanto carbonizo, ao vê-lo em agonia a tentar inutilmente escalar a tripla muralha.

Talvez, desse modo, tenha certeza de sua morte dolorosa, pois tu és criatura feita a minha imagem e semelhança, senão és tu eu mesmo, a flor negra do espinheiro nascida aos pés do crucifixo.

"Homo homini lupus"

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