Deus ex machina

Posted: sábado, 16 de julho de 2011 by Bruno Ricardo in
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Escolheria a dose homeopática de tristeza em detrimento aos suplícios de uma perpétua felicidade? Acho que não.  Pois acredito que para o mal maior não há solução única, pois é a escuridão ausência de cantos iluminados a expandir-se em becos estreitos, caminhos intransitáveis porquanto repletos de terror incomensurável.

Ah, acostumei-me a esta dose diária de loucura velada aos olhos do disfarce. Em nome da dor, anulei-me como ser, por amá-la: esta sofreguidão desvirtuada de gênero, porém impiedosa lâmina a cortar-me a carne das têmporas. Ah, já me falta o ar, ante o gozo da insanidade que se aproxima dos entes queridos, no farfalhar das horas incautas.

Na irreverência de seu traçado, a dor dos jovens tristes fere o cerne da sua capacidade de amar, retirando-lhe a essencialidade: o prazer espontâneo do viver, o passear de mãos dadas com os irmãos perdidos por entre o infinito.

Ouço o sussurro de minha dor, a carregar consigo gotas de lágrima alheias. Quisera eu ser o único a sofrer dessa angústia terrena, necessária ao engrandecimento do ser. Talvez, seja de fato indispensável, esse tormento que destrona reis.

O que ela quer de mim? Que deseja essa existência ínfima e perene, essa  morbidez dos áridos desertos de minha alma, de eternas fontes de dúvidas, a banhar-me de sangue e medo. Que culpa há em minha mãe pelo infortúnio do parir um demônio por primogênito?

Da noite conheço o escuro. Escuridão fez-se em meu nome desde o berço, por motivos escusos, que Deus pôs em mim sementes diabólicas de inefável sofrer. Estou só, nada posso contra tamanha maldade, a engolir-me os dias juvenis. Foi-se embora o último pássaro, abandonando o amo que tanto lhe cuidou, caiu a cidadela nas profundezas das minhas memórias, restou-lhes as ruínas da glória de milênios.
 
Fora da minha torre há um mundo a ignorar-me a existência. Intento trabalhar, estudar, respirar, tornar-me alguém digno da vida que arde em meu peito. Mas queima em chamas a certeza da morte, mais que presente e de inevitável sentir. Estou morto em tantos sentidos, estou vivo em um único e desconhecido significado. Ambos ocultam-se dos meus olhos. A erva dos campos nasce para existir. E eu? Que vim fazer aqui nesta terra?

Viver esta confusão, esse desânimo essa descontinuidade dos atos mais corriqueiros. Quisera que, em um momento de pausa e luzes diminutas em intensidade, a morte, viesse ligeira até a minha morada.

Não há solução para mim, afinal. Haverá? Não há. Abraçar-me a loucura e morrer ou viver cada dia solitário, desvairado a gritar em silêncio para que não ouçam aqueles que dormem nos quartos dos anjos.

Oh, Deus! Ouve meus gritos do abismo! Rasga-me do tecido da vida, pois sofro de mal irremediável. Ou cura-me, Senhor dos proscritos, pela tua mão de ferro virá a benevolência, no fim e, neste ponto, chegarei finalmente. Seja breve, meu Senhor, fere-me com a morte da carne, tange o meu espírito para os confins do esquecimento ou faz de mim redenção para meu ser interior, que padece em tantas dúvidas. Mas decide-se, Senhor!

Prendi-me a tantos sonhos e vi a verdade. Agora, que me resta? Dá-me forças para livrar-me daquilo que a mim não pertence e que desconheço a natureza real. Em unanimidade, conhece os desígnios de meu coração. Então, Deus, que esperas? Por que detém a tua mão. Salva-me ou de uma vez condena-me. Faz-se agora a tua divina justiça. Dá-me pequenos pedaços de paz ou atira-me ao nada, para que eu desapareça dos círculos da existência.

...

"Filho, de tantas angústias o mundo transborda. Mas a tua é somente fruto do acaso, um momento entre circunstâncias imprevistas. Planejei para ti somente a vida, nada mais. Escuta-me e segue um único caminho, pois nada posso fazer àqueles aos quais concedi o livre arbítrio. Seja dono de si, filho inglório, torna-se tu imagem e semelhança do pai. Segue a escolha de teu coração, enfrenta com dor a inexpugnável vida, pois isso ela oferece aos seus, gratuitamente. De tanto lutar cairá estilhaçado, mas nesta hora não se agarra a felicidade. Estenderá a ti a mão do sofrimento, a minha mão. Padecerá dos meus castigos e, porventura sobreviva, será digno de andar comigo em meus jardins. Sois baluarte do fim, a vida a guiá-lo ao fim. Então, minha criança, porque razão adiar o inevitável?"


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Sunset: "O crime maior do homem é ter nascido"

Posted: quinta-feira, 26 de maio de 2011 by Bruno Ricardo in
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Aos fins de tarde o cansaço recobre-me com a sua pesada malha. Toma-me o espírito, entorpece-me com o rubor dos olhos em chamas, deixando o meu corpo arrastar-se pela rua, frio e morto esgueirando-se em contorções involuntárias, durante a longa jornada na qual uma força estranha conduz-me inconsciente até a porta de minha casa. 

Um corpo sem alma, um bêbado louco a vagar pelo mundo dos homens bons, a mancha escarlate nas vestes da virgem, esse sou eu aos fins de tarde ou seria eu durante toda a vida, o ocaso em suas luzes amarelas banhando as últimas horas antes do morrer da estrela vespertina. 

Pudesse também extirpar-me no horizonte, abraçado ao astro em sua majestade, quisera eu extinguir-me em laranja e púrpura, cobrindo os céus com o sangue de minha carne inútil.

O portão de ferro abre-se em silêncio, velando pelo morto que adentra. Passos trôpegos seguem-se a outros e outros poucos, até o quarto escuro. Desde cedo as últimas luzes abandonaram esse lugar. Agora é quente e abafado o ar deste cômodo onde durmo, qual interior de um túmulo a abrigar o meu cadáver. Está contradição absurda contrastando-se à aridez fria de minha existência, pois a ausência de vida roubou o calor de meu sol, deixando-me solitário, perdido com as estranhas vozes a me perseguir, chocando-se em ecos interiores e inevitáveis feridas.

Desejo a cama, mas nunca a terei, tais quais tantas outras coisas que os dias me negam. Será meu esse engodo, essa falsificação do ser, por poucas horas, ocupadas então com um único propósito: o não ser. Torturei-me com angústia desde menino, agora sou homem e deixei de aprender. O que me concede, vida humana, coisa qualquer capaz de alegrar-me ou fugazes esperanças que a nada resistem? Será assim, sempre esse pesar que mal cabe em minha alma? Por que me fizera para viver afastado do júbilo, proibindo-me o desfrute das alegrias comuns a todo moço vivente? Sou eu que devo ser sacrificado? Por qual causa? Injustamente, não me criara belo e agradável como todos os outros e este é motivo o suficiente lógico para retirar-me do palco. Ah, estou sem ânimo sequer para entristecer-me.

Estou muito cansado. Aqui, preso na torre de marfim. Não há janelas ou portas ou o barulho do mar. Não há amor ou ódio. Não há esperança.

Gostaria de fugir para o infinito, meus olhos cegos a guiar-me. Dizer adeus ao meu povo e despedir-me desse mundo, levando comigo apenas o nada que sou.

Mas acredito ser isso impossível. Viverei cem anos, a expiar os meus pecados desconhecidos, agonizando nesse mundo onde as possibilidades são blefes da vida, a enganar-me, enganar-me, enganar-me.



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O Assassínio de Bruno Ricardo S. Costa

Posted: sexta-feira, 13 de maio de 2011 by Bruno Ricardo in
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O quê significa ser verdadeiramente inteligente?

Por que a abominação ao esforço necessário?

Por que o excesso de fantasias mentais, sabotando a realidade?

Por que motivo encontro-me neste mundo? Será que todas essas distorções de comportamento são expressões do acaso natural? 

Coisas que eu não sei definir ou explicar o sentido, conceituar, de modo simplista, que proporcione entendimento, quem sabe a mim mesmo.

Por que, eu, sempre impelido à mentira? Por que não sou bom o suficiente, sequer para amar?

Quem sou realmente? Essa capa de defeitos incômodos ou além disso há alguém digno de carregar um espírito? Dessa última afirmação, eu duvido da veracidade.

Quem sabe eu estou destinado a grandes coisas ou ao total fracasso, opção mais realista que a anterior?

De onde vem tanto sono, tanta preguiça? E esta inércia moral que me torna diferente de todos os outros. O que realmente impede-me de ser, satisfatoriamente, um ser humano?

Sou filho do homem, mas sinto-me afastado do mundo, impulsionado por desejos que jamais se concretizarão. Sou filho dessa vontade, que se realiza em si mesma, que se alegra no não-realizar-se. Dessa busca obcecada por motivos, por planos, e o prazer quase espiritual em vê-los frustrados ao primeiro impasse nas negociações com a minha ínfima força de vontade, somente por saber que, dessa maneira, haverá outros planos para sonhar, apenas, outros sonhos para frustrar. Sempre foi assim. E eternamente permanecerei a ver os barcos no horizonte, rumo ao leste e a felicidade a afastar-se do cais, levando consigo pedaços arrancados de meu coração.

Saudades da minha tristeza. Eu poderia ter me transformado em poeta morto, na época em que a escuridão era mais escura. Mas não, tornei-me vazio, no fim. Vazio de tudo. Roubado de mim. As coisas são mais práticas agora, mas sinto falta de pitadas de emoções, mesmo emoções tão negativas quanto as advindas da minha depressão. Agora, essa é sinônimo de cansaço mental e físico, mas não de reflexão.

Qual motivo incita a minha hora?

Se há o conhecimento dos defeitos, das falhas, talvez basta conhecer as relações intrínsecas entre cada ponto, para fechar o círculo, entendê-lo enfim. E será o bastante para mudar? A quanto tempo não exercito minha mente com questões profundas. Meu estilo perdeu-se ou se transformou, sendo que eu preferia o anterior, menos prático que este eu dos dias de hoje. O eu moribundo, que corria solto por entre as lágrimas a jorrar sangue dos cortes nos pulsos.

Este escondeu-se do mundo.

Por favor, volte depressa, pois somente à dor de tua existência confiaria a minha vida.

E aos teus braços, nesse instante, entregaria-me em deleite à doçura da morte.


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Dreamwalker - Untitled

Posted: terça-feira, 8 de fevereiro de 2011 by Bruno Ricardo in
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O que havia em sua totalidade encontra-se perdido em fragmentos pueris, memórias inconstantes, abstraidas na falsa irregularidade de seu movimento browniano, mas não menos parte de uma unidade confusa, pedaços de uma única grande verdade: um sonho que se desenrolou nas últimas horas da noite eterna, inglório, antes da derradeira aurora dos anjos.

Nesses poucos pedaços havia eu e o vazio de emoções. Havia um homem que em parte era eu, que era tudo, dado a minha onipresença. Fugia de criaturas ocultas dos olhos humanos, bestas que eu não reconhecia mas sentia sua presença, como que  tão próximas a minha sombra, a me perseguir por motivação desconhecida. Depois esse mesmo homem parou, de súbito, e plantou sementes de árvores em um campo verde, iluminado no centro, porém rodeado de escuridão. E alguem cuja face se escondia nas trevas lhe perguntava (ou perguntava a mim, que me confundia entre o palco e a platéia): "Hey, será que nascem árvores aí?".

E no desespero árvores brotavam inteiras do solo, em absoluta contradição que o estado de sonho permite realizar tais coisas em si mesmas. Eram fileiras de poucas árvores, mas acredito que eram o bastante para reprimir qualquer fera que naquela ocasião perseguia o homem agustiado. Foi-se que no meio das fileiras brotou uma ávore seca, vazia de tudo, contudo imponente, pois crescera de imediato até grandes alturas. E desta enorme ávore morta, fez-se troncos retorcidos como braços, alcançando pouca extensão, curvados em direções oblíquas, deu-lhe um aspecto de um rústico tridente.

Eu via agora como expectador, mas não tenho certeza da minha perspectiva. Ora, dalí a pouco, o tronco retorcido fora cortado e ferido, arrancado de sua metade que permanecera rigidamente fincada ao solo. Tal como ariete, fora conduzido a boca de uma criatura de horrivel aparência, aquela que parecia liderar as hostes perseguidoras de outrora, até a madeira transformar-se em um grande bolo que a grande esforço a criatura devorava, gritando em profunda agonia.

Todo o grupo agora partia em direção a um castelo preso a ponta de um penhasco. Enquanto iam, distinguia-se na visão do sonhador o branco de várias nuvens, enormes dominadoras dos céus e um azul lânguido da luz de uma manhã inédita.
 
Depois, nada mais consigo recordar.


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O Começo e o Fim

Posted: segunda-feira, 17 de janeiro de 2011 by Bruno Ricardo in
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Qual o tamanho da besta, a fera que assomou por sobre os montes na ocasião do nascimento das estrelas e desde então atormenta o coração dos homens, queimando-o em terror? Digo-lhes: sua imensidão é tamanha, devoradora de mundos inteiros. Formas amorfas de um inimigo constante, impregnado nas entranhas de nossos segredos, pairam sob a sombra de seu manto, a cor rubra e negra das lágrimas de sangue a cegar os proscritos filhos da terra.

Jamais imaginei deparar-me com tamanha desolação, o deserto vazio e infértil de meu coração solitário, perseguido até as bordas do infinito pela dor eterna e desmotivada, a qual se desconhece a origem de sua existência. O real invisível, o medo que me toma, roubou-me as forças desde menino, deixou-me órfão da casa de meus antepassados.

Eu, que tive a honra de andar sob a glória dos mortos, dos que sequer nasceram, e vi a luz branca dos primeiros dias de minha vida, fulgurante em um céu de maio. Eu que andei descalço sob campos de guerra, verdes em toda a sua extensão, então livres do cheiro das derradeiras batalhas. Eu que fugi do labirinto, voando ao lado de Ícaro, e o vi despencar do firmamento, em queda desesperada, acompanhada dos perturbadores gritos de seu pai. Eu que vi as estrelas a estibordo das naus da caravana, deslocando-se até o fim do mundo.

Agora restou-me o vislumbre de tua horrível presença, o temor mascarado do qual fugi, escondi-me em vão de tua ultraviolência. Pegou-me desprevenido e amarrou-me sem cordas à tua influência maligna.  A besta me envenena com suas palavras vis. Me impele ao precipício sem fundo, enquanto meus olhos afogam-se em lágrimas. O faz pelo prazer doentio de sentir o desespero dos condenados ecoando em meus murmúrios. Monstro pagão imundo! Não existem palavras na língua dos homens capazes de exprimir o ódio crescente, habitante do meu peito, exclusivamente direcionado a ti, aberração!

Se com a minha morte se fizesse também a tua, coisa nefasta, de bom grado doaria a minha carne às aves carniceiras e aos vermes ocultos no interior do chão, bem como a minha alma entregaria aos rios ardentes do Tártaro, somente para sorrir, enquanto carbonizo, ao vê-lo em agonia a tentar inutilmente escalar a tripla muralha.

Talvez, desse modo, tenha certeza de sua morte dolorosa, pois tu és criatura feita a minha imagem e semelhança, senão és tu eu mesmo, a flor negra do espinheiro nascida aos pés do crucifixo.

"Homo homini lupus"

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