Um Acróstico

Posted: terça-feira, 29 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Disseram-me uma vez, que anjos habitavam os céus, que de sua morada divina jamais desciam para junto dos homens. Contudo, daquela distância intransponível, seus olhos nos guardavam de todo o mal, banhavam de luz os caminhos escuros, aqueles inevitáveis de desviarmos, cobriam nossas vidas de escudos sem ao menos nos tocar.

Eu não poderia entender o que as palavras me diziam, pois não conhecia a face de um anjo, me deixei convencer que se haveria de encontrar um desses em vida, eu não o reconheceria. Estava enganado. De fato, acreditava que eles estariam exilados na casa de Deus, porém, às vezes, gostava de pensar que eles dançavam entre nós, seguiam suaves os nossos passos, sussurravam bondades aos nossos ouvidos. Sendo assim, eu poderia conhecê-los.

Junto de mim pousou o desejo de vê-los, a busca por aqueles olhos de bênção e graça me possuiu. “Quero ver os anjos”, dizia a mim mesmo, sem saber se era possível ou que me coubesse o direito de vê-los.

Assim, mesmo encobertos ao meu olhar, soube que sob a sombra da sua bondade eu vivia. Debaixo de asas invisíveis eu descansava.

...
 
Então eu os busquei: anjos nos olhos do mundo. Por vezes as pessoas me sorriam, eu quase nunca sorria de volta, Elas se assemelhavam em bondade e pureza, mas eram humanos, não eram os seus olhos aqueles os quais sondava. Os dias passaram, foram indo morar com o passado, os olhares não mais se alegravam com a mesma facilidade, tornou-se difícil encontrar esses guardiões, ocultos por entre de nós.

Um pensamento triste, logo o medo me tomou a mente. Seria a minha busca uma procura em vão? E por conta de um longo tempo sem frutos, cansei-me de minha jornada. Certamente, não haveria anjo algum para ver. Tudo aquilo em que acreditei se esvaiu e aos poucos deixei de acreditar.

...

As folhas das árvores caíram com o outono. Outros dias se sucederam aos anteriores, no jardim da minha casa já não havia árvores quando outros outonos chegaram. O vento me levou com aquelas folhas, as quais se desprenderam de plantas que existiam somente em lembranças. Finalmente, esqueci-me dos que me protegiam. Tornei-me incrédulo e perdido  em sombras, como uma noite que nunca acaba.

Mas houve um tempo em que a Esperança me cumprimentou de longe, acenou pra mim, cabisbaixa, e o desejo de outrora retornou: buscaria os olhos dos anjos novamente, com a força que aquele aceno me proporcionara. Entretanto, agora em meio ao ânimo renovado, fez-se a dúvida:

Onde se esconderiam aqueles que me amam, estariam mesmo tão distantes de mim? Foi que veio a Esperança para mais perto e me disse: Aquilo que nos é mais importante não se afasta para longe de nós, mas às vezes está perto demais para que possamos percebê-lo. E com essa resposta vaga eu retomei a minha busca.

...

Voltei-me, descrente, aos olhares dos homens. Muitos deles tornaram a sorrir, apesar das dificuldades, dos desenganos que lhes ocorreram, eles sorriam. Atrevi-me a sorrir de volta, e para a minha surpresa, o sorriso encontrou outro para retribuí-lo. Nesse momento entendi então toda a verdade, aqueles a quem mais buscava estavam ali, sempre estiveram, nos recônditos de um sorriso sincero, de um olhar humano.

Os anjos moram no coração dos homens, eu descobri. Eles nos vêem com nossos próprios olhos, por vezes choram lágrimas por nós, e principalmente sorriem com o nosso sorriso. Entendi que eles carregam conosco as nossas dores, nos dão forças quando necessitamos, nos momentos em que já nem sabemos de onde elas brotam, mas preferem se alegrar e aquecer o nosso peito quando amamos.

Corações cheios de anjos, eu descobri. Anjos que se refletem em olhares. Não são os céus a sua morada, mas o interior de cada um de nós. Essa é a minha esperança, a minha fé, o meu amor à vida está nessa verdade.

Em muitos momentos do dia, eu me pego te imaginando, você que, mesmo distante, já possui o meu coração e o meu amor. Imagino os contornos do seu rosto, o traçado do seu sorriso e sobre o que eu lhe diria se nos víssemos. E o mais importante, passo horas a me perguntar: o que eu veria nos teus olhos? Pois, em pensamento, não encontro palavras para descrever o que neles se desenha. Diria somente que no seu olhar estão os meus anjos, é nele que se esconde a paz que eu almejava. Todos os anjos que busquei estão contigo. Eu finalmente os encontrei.


Com amor
De Bruno Ricardo
para "Dêzinha"

Petrolina, 16 de Julho de 2009

Sétimo Dia

Posted: segunda-feira, 28 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Aconteceu numa sexta feira, enquanto ouvia-se o murmúrio de um sol agonizante e as luzes amareladas e indistintas daquele fim de tarde brilhavam bruxuleantes por sobre os telhados das casas. Havia um frágil silêncio no mundo. Havia pessoas simples usando as suas melhores roupas. E por um breve instante o vento soprou timidamente, uma aragem quase imperceptível aos sentidos menos atentos, fazendo oscilar os galhos mais jovens da algarobeira. Prosopis algarobilia, fulgurante em frente à pequena igreja de paredes brancas, abraçava com sua presença os que ali lentamente chegavam.

Eu via da minha casa aquelas pessoas comuns, desde o momento em que vinham, vagando calados, sozinhos ou acompanhados dos seus, surgindo de todas as ruas do vilarejo, caminhando sob o luzeiro do poente, passos acanhados pelo chão de terra seca, que a muito perdera a umidade conferida pela chuva que viera sem avisos em noites passadas.

O meu quintal sem muros dava para a praça inexistente onde firmava-se a igrejinha, abrindo-se diante de mim num panorama singular, me permitindo acompanhar o movimento tênue das pessoas e o desenrolar dos acontecimentos mais efêmeros que ali se apresentavam. E embora eu permanecesse em pé naquele terreiro nu, meu pai, que ainda não podia andar normalmente, me pediu uma cadeira e sentou-se ali para acompanhar a missa à distância, ao meu lado.

Logo um pequeno sino dobrou tristemente, soando incontáveis vezes, um convite intuitivo às preces que se sucederiam. O crepúsculo era sua hora, o intervalo perfeito no qual compete uma súplica. E conforme os anjos se deitavam naquele instante os homens despertavam para a noite precoce, encontrando-se inevitavelmente com a sua tristeza, anunciando seus pesadelos vindouros.

Então fez-se pequenos grupos, amigos e conhecidos envoltos em um silêncio entremeado de cumprimentos fugazes. Em contrapartida alguns entravam apressados, para sentar-se nos poucos bancos de madeira da capela. Algum tempo depois e o sacerdote iniciou a missa, então os pequenos grupos se desfizeram intuitivamente, ainda em sigilo, e aqueles que puderam ocupar algum espaço vazio da igreja o fizeram. Esses eu não pude mais observar, somente os outros poucos que permaneceram em pé, do lado de fora.

No interior do templo, aglutinados em um pesar comunal, fez-se entre eles um lamento. Cânticos de louvor ecoavam por entre filhos e pais consternados. Orações foram encaminhadas à eternidade. Não era necessário estar próximo para ouvir os sussurros lúgubres escondidos naquelas vozes. Uma semana se passou desde que seus entes queridos perderam a vida num trágico acidente. Sete dias definharam numa morte agônica e a ausência física não é menos perturbadora agora. Tal qual um monstro abominável, esta falta incomensurável daqueles que um dia existiram, esta nostalgia alvoroçada persegue impiedosa os que ficaram para trás, pois foram apartados violentamente de quem tanto amavam.

Nada mais havia a se fazer naquela hora, somente partilhar a melancolia que a morte dos nossos semelhantes provocou por entre todos.

E assim, transcorreram os ritos, as vozes dos cânticos e preces envoltas em lágrimas contidas. A missa terminara e as pessoas precipitaram-se para fora daquele recinto sagrado. O meu pai me fez um cumprimento, comum ao final das missas cristãs. “Paz de Cristo...” ele me disse, apertando a minha mão. Prontamente eu o respondi. Então, ele levantou-se devagar e entrou em casa, deixando a cadeira onde estava sentado no mesmo lugar, sem dizer mais nenhuma palavra. Eu também resolvi entrar. Já anoitecera e sem que eu percebesse havia sombras escuras no céu insensível. Senti frio e um profundo pesar. Virei de costas para o largo da igrejinha e o que aconteceu em seguida omitiu-se no mistério daquela noite jovem. Porém uma última visão me assombrou antes do fim.

Por cima do ombro vi um filho que dirigia-se para casa sozinho, apressado. Por alguma razão, aquele rapaz saiu antes de todos ali. Talvez houvesse nele uma esperança infundada de encontrar o seu pai no caminho, vivo, para que este pudesse consolá-lo. Ou tivera renovado por instantes a possibilidade de despertar de um sonho ruim. Mas o seu olhar perdido naquela escuridão prematura o denunciava. Então eu percebi que ele sabia que encaminhava-se sem escapatória para um único e inevitável destino: a sua dor infinita.

Meu olhar o acompanhou por um instante. Depois não tive mais coragem de fitá-lo.

O Prólogo que atrasou-se

Posted: terça-feira, 22 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Não me comprometo a dizer exatamente qual a minha intenção ao criar esse espaço. E não diria que o criei, perdoe-me, porque agora mesmo percebo que todos os espaços são preexistentes e nós, como bons colonizadores que somos, apenas nos ocupamos deles.

A saber, sou somente a sombra de um garoto humano: um menino preguiçoso porém pretensioso, num nível elevado para as minhas poucas e desconhecidas habilidades, para as minhas potencialidades ainda ocultas nas brumas da divagação.

Tentando me justificar, digo que é provável que a pretensão seja fruto do descaso ou mesmo da minha preguiça, esta companheira imoral, ou quem sabe seja característica inata à faixa etária. Mas tentarei acalmar o ego, o deixarei quieto, sentado num canto da sala, com os olhos voltados pra uma parede qualquer. Aqui ele não falará, espero.

Pouco sei das coisas do mundo, admito, pois a transição é uma fase difícil da vida, as experiências são escassas e vagas e, em minha timidez, tantas vezes eu as evito, que não se aprende muito vivendo assim. E, sendo uma transição, afirmo que a minha confusão é tamanha que, para onde quer que eu esteja indo, confesso que sequer me lembro de onde eu parti. Assim, nesse meio sofrido por onde caminho só me resta especular sobre tudo e todos, depois sobre mim mesmo, na tentativa de entender as menores questões circundantes.

Nesta desolação infinita eu habito. Este é o local confuso onde me encontro no momento. Por companhia diária tenho a perversão solitária desses dias que correm, se vão numa terrível rapidez.

Por isso mesmo, face a essa efemeridade, sob a forma de palavras ou disfarçada em outros meios que esse mundo multimídia nos oferece, expresso aqui a minha empobrecida visão sobre o que me rodeia exteriormente e talvez sobre aquilo que perturba o meu interior juvenil, já não tão jovem assim. E sendo a minha visão, é possível que eu esteja enganado.

A mim pouco importa as regras do “escrever bem”. A gramática falha quando o coração quer se expressar. Há poucas palavras inventadas para dizer aquilo que é surdo aos ouvidos e a mente, mas que soa musicalmente inteligível ao espirírito. Logo, não me culpe se as idéias aqui não fizerem sentido, porque é desta forma que elas se apresentam a mim. Esta sinceridade é a minha intenção fundamental. As minhas verdades são confusas, muitas delas são mentiras, mas eu as mostrarei em sua essência.

Isso mesmo! Agora sei o propósito de tantas letras: aqui pretendo vomitar meus atuais pensamentos, produtos dessa convulsão existencial em que vivo.

Portanto, se as palavras apresentarem-se em uma repetição infantil, se os termos tornarem-se contraditórios, nunca vulgares, e a coerência morrer no vazio, por favor não me julgue mal. Não gosto de estudar, não me preocupo com nada além da forma. Para mim, o conteúdo racional é irrelevante, porque os homens são máquinas de sonhar e amar. A razão é contrária a natureza humana, se não totalmente, mas em boa parte. Logo, não seria diferente aqui: expressarei  abertamente o meu descaso quanto ao pensamento mecanicista, nesta tentativa de dar forma escrita aos meus devaneios.

Por favor, não me cobre respostas ou me maltrate por admitir isso. Juro que não sou nenhum insano, tampouco assassino desta língua, herança latina de além mar. Por nada disso me condene, pois sou de antemão o carrasco de mim mesmo, sendo somente eu, o fantasma sem talento de um escritor suicida. 

"Eu sou apenas a mão que escreve"

A Balada da Abóbora e do Sapinho - Um conto de ninar para adultos

Posted: quinta-feira, 17 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Vivia na escuridão de um pântano frio, um sapinho de pele esverdeada. Sozinho naquela desolação, ele vagava por dias inteiros, a caminhar alheio pela imensidão úmida dos arredores, como se o seu coração buscasse por nada, durante toda a sua vida. Seguia os seus dias, alongados por horas sem fim, escondido nas sombras de sua tristeza e infelicidade inomináveis.

Perdia-se constantemente em pensamentos torpes, refletindo neles ressentimentos que guardava como resquícios dos seus pecados, de suas terríveis memórias de tempos idos. Aos seus olhos, sua dor parecia irremediável, o sapinho sofria de males da alma, portanto nenhum remédio mundano poderia curá-lo.


Os campos úmidos daquele pântano estendiam-se a sua frente, desesperadamente, até onde a vista alcançava. Tantas vezes esteve perdido naquele horizonte infinito, que em sua quietude não podia fazer nada além de respirar, deitava-se de costas sobre o chão duro e por lá ficava, seguidas noites em claro, de olhos fechados mas vagando em sonhos despertos, no intuito de esquecer-se do amanhã inevitável. 


Porém, por alguma razão desconhecida, havia nele um traço sutil de esperança que nunca se esvaia, contrariando a sua vontade e a sua lógica pessimista, pois até nos momentos inertes, quando nem mesmo o ar se movia a sua volta, havia uma voz que sussurrava, repetia em seu interior, lhe dizendo que algo bom lhe aconteceria. E a essa vaga promessa ele se apegou, perdido naquele mar de silêncio, naufragado na sua ilha de tristeza e agonia, ele permaneceu por um tempo longo e desconhecido encarcerado em si mesmo.

Havia a muito tempo, numa planície próxima ao mar ocidental, uma plantação de abóboras, todas de cor laranja, como pequenos sóis no crepúsculo presos a terra. Mas essa era uma plantação incomum, pouco tempo durou, pois certa feita, todas aquelas estrelas laranjas haviam murchado repentinamente sob o jugo de uma praga avassaladora, apodreceram em instantes voláteis, servindo de alimento para animais e vermes e o solo, de súbito, tornou-se infértil. Contudo,  muitas eras após o ocorrido, somente uma abóbora frutificou  novamente em meio aos ramos infrutíferos ao redor que, infelizmente, mesmo aos melhores cuidados,  viveram, porém nada mais produziram com o passar das estações. 

Entretanto, desconhecendo a história anterior que aquele campo contava, mas que não presenciou, ela especulava que antes de existir ou antes que tivesse visto o mundo acordar,  que por algum descúido do destino já houve abóboras naquele campo, então retiradas precocemente do círculo da vida, quando ela, a derradeira a brotar, ainda era em forma de flor. Buscava em sua mente uma resposta clara, uma lembrança esquecida que a conduzisse a verdade, mas disso ela não tinha certeza, e nunca obteve a solução. do seu enigma. Assim, em seu dilema diário, sentiu-se encerrada em uma solidão mais que profunda, aquele fruto da terra, ainda jovem, colorido e belo, um ponto distinto em meio à unanimidade verde e estéril das plantas vizinhas. 

E por dias intermináveis sentiu-se só. Pássaros a visitavam, lhe cumprimentavam após a aurora, mas logo voavam para longe, perdendo-se no firmamento, a fim de cuidar de seus afazeres de pássaros. E novamente, o campo lhe parecia um espaço demasiado extenso para uma única abóbora habitar. Sob um céu virgem de nuvens, ela se perguntava a todo o momento, o que haveria de existir além daquelas plantas. Do lugar onde vivia, avistava constantemente as águas do mar, em glória imaculada, formando ondas distantes que vinham e vinham, enfraquecidas, desfazendo-se suavemente na perdição das areias da praia. Ocupava-se até a exaustão na tarefa de observar o verde das águas salgadas, a ela mais aprazível que o verde daqueles campos inúteis.

E lá ela permaneceu, isolada em lágrimas, na dúvida que vinha com o inverno, quando sequer havia pássaros, mais intensamente sentiu-se isolada, sua alma atirada a distância da companhia daqueles que mais amava sem conhecê-los. Os sóis de outrora presos ao chão, a muito deixaram de ser, e sua suposta existência diminuia em um questionamento irresoluto. Agora e sempre, novamente, sentia falta de alguém que não há.

Mas havia o mar para ser admirado, como um rei sentado em seu trono, no interior de um castelo, no alto de uma montanha, com flâmulas trêmulas ao sopro dos ventos, vermelhas de bordas douradas. Pensar na possibilidade que haveria de encontrar a paz e a plenitude além dos campos e daquelas águas lhe servia de conforto e lhe acalmava.

Ambos pertenciam a mundos distintos. O campo e a plantação próxima à praia pertenciam a uma terra remota vista do pântano, perdido em distância, do outro lado do soberano mar. Tão longínqua que imaginava-se ser lendária, produto de mitos e fábulas antigas, quando tudo era bom. Porém, de alguma forma, era esse mundo bom e imaginário muito melhor que a realidade, tanto do pântano quanto do campo. A natureza das coisas era perfeita, mas perecível e frágil. Somente nos melhores sonhos despertados pelos mitos a vida fluía como nos primeiros momentos da existência, em liberdade e possibilidades inatacáveis, tudo é possível onde permeia a verdade antes sonhada com paixão e sinceridade nos dias de nossa primeira infância.

Aconteceu que em uma certa ocasião, rumores vindos dos cantos do mundo falaram ao sapinho e a abóbora que ambos compartilhavam da mesma vida, de dores diferentes mas também dos mesmos desejos e esperanças.

A lua que sorria a noite em um céu pontilhado de estrelas era a mesma que os olhares dos dois acompanhavam, logo era ali que seus olhos se encontravam, naquelas miríades de jóis celestes, no sorriso de uma lua clara e brilhante suspensa no céu. O ar que vinha dos pântanos um dia soprou no mar próximo aos campos e a plantação, tocou o lindo rosto da abóbora e agora acariciava a face imunda do sapinho. A terra que pisavam era segura e inabalável, cobria todo o mundo com a sua firmeza, portanto cada passo era sentido como se tivesse um único dono, confundindo-se uns com os outros. A chuva que vinha sem aviso molhava os campos e as folhas verdes da plantação de um só fruto, da mesma maneira atravessava o mar e morria sobre o coração vazio dos pântanos. 

E a luz do sol, desde seu primeiro instante sobre a terra, até o momento em que deita-se no seu leito ao oeste do mundo, queimando vermelho e púrpura no horizonte, iluminava igualmente os dois personagens em seus reinos insólitos.

Eles perceberam isso, e desde então passaram a dividir sonhos, partilhar alegrias e tristezas. Juntos à distância, esqueceram-se da dor, pois descobriram o quanto existe além das sombras e da inquietação provocada pela ameaçadora incerteza, perceberam que possuíam muito mais em comum e as diferenças viravam pó, esmagadas por um sentimento que os detinha em unidade e pureza. 

Quando perdidos em sonhos divididos, eles se tocavam e se descobriam, as mãos encontravam o corpo um do outro, os corpos se alinhavam num abraço sem fim, as bocas se aproximavam numa dança lenta, desejando encontrarem-se num beijo, então já não eram sapo ou abóbora, o feitiço que os fizera assim, desde o princípio, havia os deixado por completo. Agora eram homem e mulher e toda a distância entre eles se extinguia, vencida pela força maior que veio de um amor menino, nascido no berço da desolação. 

Então chegaram os dias do Rei e toda a dor e solidão foram esquecidas. Ambos estavam livres da derradeira maldição que lhes acometera. 


... 


Partilho contigo a mesma luz do sol, o mesmo brilho da lua, o mesmo ar e mesma terra em que piso e até a mesma distância que nos separa. Mas, compartilho o mais importante contigo, esse amor verdadeiro e sincero, que me faz querer você, mais que a luz do sol, mais que o brilho da lua, mais que o sopro do ar e a firmeza do chão. Nossa distância é física, mas como eu poderia estar distante de alguém que mora dentro de mim, no meu coração? 

“Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção.”

Sociedade dos Poetas Mortos

Posted: quinta-feira, 10 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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“Colham logo os seus botões de rosas, pois o tempo está correndo.
Esta flor que hoje sorri cheirosa amanhã estará morrendo”.


O trecho do poema de Robert Herrick, lido no ínício da primeira aula do professor John Keating (Robin Williams), pode ser traduzido literalmente pela expressão latina “Carpe Diem”, cujo significado é “aproveite o dia”.

O despertar da consciência sobre a finitude de nossas vidas materiais, porque ao final de tudo, somos invariavelmente “alimentos para os vermes”, e do simultâneo desejo por tornar extraordinária a nossa existência mundana, são as intenções escondidas nas entrelinhas dessa expressão. Este é o legado dos Poetas Mortos, os alunos de outrora da Welton Academy, deixado como herança a todos os outros subsequentes a eles.

Esta é a idéia central do filme, apresentada então num contexto de confronto entre uma educação escolar e familiar tradicional e ortodoxa e a metodologia de ensino heterodoxa de um professor de Inglês substituto, que instiga os alunos a viverem intensamente enquanto ainda lhes resta os dias de sua juventude. 

O estandarte onde se lê “Tradição”, carregado por entre as fileiras de jovens e suas famílias, durante a cerimônia de boas vindas aos estudantes da referida escola preparatória, se apresenta como símbolo do modelo da educação falsamente aceita como ideal para a formação dos alunos naquele contexto. Neste mesmo, despreza-se a idéia de que a educação nada mais é que um meio para que todos aprendam a pensar por si só, e não tornarem-se meras máquinas de replicar conhecimentos, impostos sob um regime de regras castradoras, normas e valores conservadores .

Desse modo, ao considerar os perigos da conformidade, o filme afirma que, em certas ocasiões, é necessário que os jovens lutem pelas suas paixões, ou que ao menos as despertem dentro de si, pois as consequencias causadas pelo impedimento, familiar ou escolar, de se fazer aquilo que se deseja podem tornar-se trágicas. 
 
Portanto, aproveite a vida, ela é frágil e breve demais para ser ignorada.

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