Sétimo Dia

Posted: segunda-feira, 28 de junho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Aconteceu numa sexta feira, enquanto ouvia-se o murmúrio de um sol agonizante e as luzes amareladas e indistintas daquele fim de tarde brilhavam bruxuleantes por sobre os telhados das casas. Havia um frágil silêncio no mundo. Havia pessoas simples usando as suas melhores roupas. E por um breve instante o vento soprou timidamente, uma aragem quase imperceptível aos sentidos menos atentos, fazendo oscilar os galhos mais jovens da algarobeira. Prosopis algarobilia, fulgurante em frente à pequena igreja de paredes brancas, abraçava com sua presença os que ali lentamente chegavam.

Eu via da minha casa aquelas pessoas comuns, desde o momento em que vinham, vagando calados, sozinhos ou acompanhados dos seus, surgindo de todas as ruas do vilarejo, caminhando sob o luzeiro do poente, passos acanhados pelo chão de terra seca, que a muito perdera a umidade conferida pela chuva que viera sem avisos em noites passadas.

O meu quintal sem muros dava para a praça inexistente onde firmava-se a igrejinha, abrindo-se diante de mim num panorama singular, me permitindo acompanhar o movimento tênue das pessoas e o desenrolar dos acontecimentos mais efêmeros que ali se apresentavam. E embora eu permanecesse em pé naquele terreiro nu, meu pai, que ainda não podia andar normalmente, me pediu uma cadeira e sentou-se ali para acompanhar a missa à distância, ao meu lado.

Logo um pequeno sino dobrou tristemente, soando incontáveis vezes, um convite intuitivo às preces que se sucederiam. O crepúsculo era sua hora, o intervalo perfeito no qual compete uma súplica. E conforme os anjos se deitavam naquele instante os homens despertavam para a noite precoce, encontrando-se inevitavelmente com a sua tristeza, anunciando seus pesadelos vindouros.

Então fez-se pequenos grupos, amigos e conhecidos envoltos em um silêncio entremeado de cumprimentos fugazes. Em contrapartida alguns entravam apressados, para sentar-se nos poucos bancos de madeira da capela. Algum tempo depois e o sacerdote iniciou a missa, então os pequenos grupos se desfizeram intuitivamente, ainda em sigilo, e aqueles que puderam ocupar algum espaço vazio da igreja o fizeram. Esses eu não pude mais observar, somente os outros poucos que permaneceram em pé, do lado de fora.

No interior do templo, aglutinados em um pesar comunal, fez-se entre eles um lamento. Cânticos de louvor ecoavam por entre filhos e pais consternados. Orações foram encaminhadas à eternidade. Não era necessário estar próximo para ouvir os sussurros lúgubres escondidos naquelas vozes. Uma semana se passou desde que seus entes queridos perderam a vida num trágico acidente. Sete dias definharam numa morte agônica e a ausência física não é menos perturbadora agora. Tal qual um monstro abominável, esta falta incomensurável daqueles que um dia existiram, esta nostalgia alvoroçada persegue impiedosa os que ficaram para trás, pois foram apartados violentamente de quem tanto amavam.

Nada mais havia a se fazer naquela hora, somente partilhar a melancolia que a morte dos nossos semelhantes provocou por entre todos.

E assim, transcorreram os ritos, as vozes dos cânticos e preces envoltas em lágrimas contidas. A missa terminara e as pessoas precipitaram-se para fora daquele recinto sagrado. O meu pai me fez um cumprimento, comum ao final das missas cristãs. “Paz de Cristo...” ele me disse, apertando a minha mão. Prontamente eu o respondi. Então, ele levantou-se devagar e entrou em casa, deixando a cadeira onde estava sentado no mesmo lugar, sem dizer mais nenhuma palavra. Eu também resolvi entrar. Já anoitecera e sem que eu percebesse havia sombras escuras no céu insensível. Senti frio e um profundo pesar. Virei de costas para o largo da igrejinha e o que aconteceu em seguida omitiu-se no mistério daquela noite jovem. Porém uma última visão me assombrou antes do fim.

Por cima do ombro vi um filho que dirigia-se para casa sozinho, apressado. Por alguma razão, aquele rapaz saiu antes de todos ali. Talvez houvesse nele uma esperança infundada de encontrar o seu pai no caminho, vivo, para que este pudesse consolá-lo. Ou tivera renovado por instantes a possibilidade de despertar de um sonho ruim. Mas o seu olhar perdido naquela escuridão prematura o denunciava. Então eu percebi que ele sabia que encaminhava-se sem escapatória para um único e inevitável destino: a sua dor infinita.

Meu olhar o acompanhou por um instante. Depois não tive mais coragem de fitá-lo.

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