It's about life

Posted: sábado, 27 de novembro de 2010 by Bruno Ricardo in
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Oh sim, meus queridos filhos, ainda que cabisbaixo este servo volta à casa das suas palavras avulsas tal qual retorna a casa do pai o filho pródigo que viveu um tempo por entre os porcos. Ah, são bichos tão exigentes estes com os quais convivi. A princípio considerei dar-lhes migalhas douradas de minha atenção e quando percebi já havia a muito me perdido, vendo a minha figura envolvida em sua imundice abjeta. Entretanto, não importa falar a vós sobre tempos idos, pois vim aqui, nesta noite negra, especialmente para falar sobre a vida.

Vida, em suas impossibilidades descritivas, em coleções de análises superficiais e resultados incertos, digo que há somente uma única verdade nessa torrente de respirações e batimentos cardíacos: a mudança, senhora da unidade.

Agora mesmo, a morte, ingrata realidade, é princípio único ou fato incontestável, mas nem ao menos possui força o suficiente para fugir ante as nuances das interrogações humanas, pois há neste mundo quem afirme que este derradeiro momento é senão começo de tudo.

Não quero duvidar nesta hora. Então será somente verdade aquilo que se prova por fatos, afirmações exatas, o material que permeia este discurso tresloucado.

23 anos nessa estrada. Excluindo-se as fatais comparações de ordem numérica este é um espaço de tempo demasiado extenso para o aprendizado. Quantas vezes eu respirei desde aquele amanhecer? Quantas vezes meu coração jorrou sangue para as demais partes de meu corpo? Quantos pensamentos brotaram em mim, desgarrados de minha alma, pulsaram em supernovas, embebidos em vida própria me consumiram e construíram meu mundo? Quantos? Tantos.

Reticências e dúvidas, mas certezas e lições trouxeram-me a esta noite de novembro, desfazendo-se em seus últimos dias. Atrevo-me a desfrutá-la no vislumbre de seus estertores, enquanto minha inspiração, fornecendo doses de fúteis epifanias, ri da desgraça e desfaz-se em sombras ao final destas linhas irrelevantes. Com nitidez eu percebo que a vida é senão uma sopa de mudanças, transeuntes de vielas ocasionais, descuidadas e imprevistas damas de luto, que sorriem da face abatida dos homens.

Oh, meus queridos filhos, isto é tudo que saberás com certeza sobre a vida. Hoje ha castiçais adornando as paredes e cadeiras negras de madeira aromática, emblemáticas em seus belos entalhes, revelando imagens de amanhãs bonitos. Serão, entretanto, no teu próximo despertar, memórias daquilo que jamais aconteceu. Quando vier a saudade da casa do pai, nem a dor indissolúvel será companheira, pois no tempo que esta vier a ser, novamente, dona desta noite de um novembro moribundo, não serão vocês os mesmo meninos aos quais um dia falei.

Oh, minhas crianças, corre neste peito um rio de lágrimas e risos, margeado pelo infinito desprovido de cais, e represa alguma possui poder para barrá-lo em lagos profundos. Sendo eu somente este rio, mudo a trajetória do destino mais cruel e perfuro a pedra bruta, escavando permanentes vales por onde minha presença se realiza. Mas o faço sem propósito e, discreto, admito não saber onde estará finalmente o meu estuário. O verbo transforma-me, eu transformo o mundo e este último sou eu, dançando no trânsito de inconstâncias.


E aqueles que nascem da dor de suas mães serão testemunhas desta verdade: a perpétua metamorfose de si em comunhão com o mundo, onde nos encontramos encarcerados nesta teia de linhas imaginárias, finitas, preciosos fios de vida soltos ao vento que sopra do mar desconhecido.


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"Now the drugs don't work"

Posted: segunda-feira, 1 de novembro de 2010 by Bruno Ricardo in
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“Esta é a vanguarda dos meus dias mais escuros.
Porque hoje a luz deixara a minha vida”.

Assim escrevera com letras bem desenhadas nas linhas azuladas do caderno até então não usado, presente de sua mãe, este amálgama de palavras que abandonaram a morada de seu inconsciente.

Aníbal morrera sozinho no deserto, acometido pela sede e inanição, pelo amor não correspondido e pela queda de Azaléah, utopia moribunda a deitar-se, tal qual uma vadia, no fundo do mar. Miranda fora decapitado numa tarde de quinta feira, por não conseguir desviar-se das escamas prateadas da grossa cauda de um dragão incauto, desgarrado do bando, assustado com o barulho das máquinas de guerra. Oliver caiu desse precipício e nada restou de seu corpo que fosse o suficiente para um funeral. Abaixo, viram somente uma grande mancha escarlate a colorir as paredes de pedra e cegar-lhes os olhos, lá embaixo um vislumbre de horror tamanho, obscurecido pela sombra que habitava as profundezas de seu último repouso. Thomas pereceu após muitos dias de lágrimas involuntárias, provocadas pela intensa perturbação vinda da árvore da guerra. Valéria sobreviveu ao genocídio e as batalhas pela torre de seu clã, mas o fogo que veio do céu fizera de seu sorriso uma brasa vermelha e negra. Um leito de dor restara para os teus pais, a muito esperando, ansiosos, a chegada do último anjo.

 Quem lhes fala agora? Somente um contador de histórias de eficiência contestável e sem talento algum para desempenhar tal ofício. Apenas este servo de Deus, que já abandonara o reino dos homens no intento de viver no exílio, na ilha da noite. Recluso, impossibilitado de possuir aquilo que lhe falta. 

 Oh, este velho e pequeno escravo, arruinado pela sombra do terror, agora acostumado às amarras e grilhões de ferro, amigo de sonoras correntes seguindo seus passos: deixai que esta aberração vos fale. Pois estou me afogando em desespero e gostaria muito que alguém pudesse me ajudar. "Now the drugs don't work. They just make me worse..."

Aníbal me disse adeus, acenou na distância, quando eu o vi em forma de sombra, uma silhueta negra contra a luz do ocaso. Miranda não me concedera o abraço que prometeu nos campos de trigo, pois por ele esperei durante trezentos anos e sequer notícias de sua morte recebi. Oliver nadou nas águas claras do rio com nossos primos, junto às muralhas, mas não comeu do peixe assado nas margens. Thomas mudou-se sem bagagens para Liverpool. Valeria teve o coração trespassado pelas minhas dúvidas, agonizou em seus derradeiros instantes, faleceu, finalmente, vitimada pela vilania disfarçada de meu egoísmo, pelos anseios de minha meninice, e nunca mais me mandara uma carta dentro de uma garrafa lançada ao mar. 

Restou-me morrer mais uma vez, antes de abraçar-me a loucura. Ou será o viver a insanidade que não consigo suportar? Aqui, no meu prato, a comida fria a me adoecer, o fardo vazio e pesado atado às costas, “the same old fears”, os recorrentes pesadelos de violência absurda, os dias de névoa negra a cobrir a entrada da caverna, as criaturas deformadas que gritam no meu quarto por toda a longa noite. Sobrou para este servo o pão nosso de cada dia, que comerei sozinho, calado, morrendo por toda a eternidade.


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