Desculpe-me se as letras desta carta tiverem uma aparência trêmula, mas agora o meu corpo está reagindo ao frio ansioso de minha alma. Nesta hora, está difícil fazer qualquer coisa que exija um pouco mais da minha coordenação motora.
São precisamente cinco horas e treze minutos de uma manhã de quinta feira, enquanto essas palavras começam a abandonar-me. Faz frio aqui dentro do pavilhão, lá fora talvez não com a mesma intensidade. O ventilador coletivo move as suas hastes plásticas acima de nossas cabeças, a fim de produzir um vento artificial, um alento aos que sentem um inevitável calor noturno, mas para mim um capricho desnecessário, salvo pelo barulho que produz, abafando os gritos dos mutilados na longa madrugada, ainda gemendo na enfermaria improvisada montada diante de nós.
À noite eu acordei duas vezes enquanto dormia. Esta foi a segunda e definitiva. Nessa situação é preferível levantar-se e buscar alguma atividade para ocupar a mente a ficar rolando na cama em agonia, lembrando-se de pesadelos recorrentes ou memórias perturbadoras do dia de amanhã. Muitos aqui o fazem, os capitães nos permitem algumas regalias ou fingem não perceber a nossa leve insubordinação neste e em outros casos.
Mas desta vez não foram os gritos humanos que me despertaram. Estou angustiado demais para me manter dormindo, aqui os meus medos são incessantemente renovados. Talvez sejam as crises respiratórias, menos constantes depois dos remédios que chegaram a dois meses atrás. Afinal, de quê adianta buscar um motivo se a algum tempo eu já estou acordado?
Por esta razão única, ainda que não entenda o objetivo dessa manobra involuntária dos meus dedos, deito a pena sobre o papel, a desenhar formas em seus significados, na tentativa inútil de reproduzir aquilo que de forma indistinta corrobora a sua existência. Medo, inquietude, pulmões constantemente esmagados pelo nada, como poderia reproduzir tais coisas com palavras?
Ontem vieram Dragões negros e tomaram a ponte e a cidadela, afastando as nossas últimas defesas do rio. Uma surpresa bastante desagradável, não nos encontrávamos preparados para enfrentar tais diabruras. Garras aladas rasgaram a carne de muitos homens e outros tantos foram queimados por labaredas das quais não havia escapatória. Houve fogo no céu nessa tarde vermelha ao passo que sórdidos gritos vindos dos mais profundos círculos do inferno, eram proferidos por aquelas bocas fumegantes. Talvez, parte das tropas Orientais bombardearam seus territórios e as feras foram então tomadas por uma violência incontrolável, arremetendo-se sobre nós, que nos encontravamos mais próximos dos contrafortes desses montes cinzentos.
E durante toda a noite reproduziu-se o terror do dia sob outras formas não menos hediondas. Damas sem rosto usando vestidos feitos da pele escura dos dragões mortos, bruxas vindas das derradeiras minas fantasmas, entoaram canções encantadas dos altos dos montes, levando o desespero para dentro de nossos corações já abalados. Seus risos sinistros paradoxalmente nos causaram tristeza. Até agora a pouco havia ecos desse maldito canto sonoro, percorrendo os pavilhões, uma melodia terrivelmente harmoniosa anunciando a inevitável morte. Antes que eu viesse a dormir, soube que muitos dos nossos, enlouquecidos pela tristeza, atiraram contra a própria cabeça ou contra os outros companheiros de quarto, enquanto alguns dilaceraram os pulsos com a lâmina das cimitarras.
Nas nossas mentes, todas essas coisas nos pareciam lendas de um mundo antigo e perdido. Quisera isso fosse verdade. Algo me diz que outras vezes voltarei a desejar isto.
Ainda que eu não mais mencione e o correr de muitos anos me levem à velhice estagnada, uma hipótese tão irônica, a lembrança desses horrores me causará a mesma vívida sensação ou ela será apenas despertada como uma besta sonolenta habitando o meu peito. De fato, eu nunca sairei desse campo de sangue. Estarei preso a ele permanentemente, com os meus irmãos, em vigília, aqui onde a noite é mais escura. Será que já estamos mortos? Chego à conclusão que nenhum de nós poderá voltar para casa um dia.
Os primeiros raios da aurora investem sobre o acampamento, ao fim dessa carta já não precisarei da luz do lampião para escrever. Não tenho certeza se esta chegará as suas mãos, assim como outras que escrevi nos últimos meses que perderam-se nos contínuos ataques aos comboios que nos foram relatados.
Esta é uma terra de incertezas e cada um de nós está sozinho, a falar com confidentes invisíveis, distantes demais do acampamento. Eles são vocês, que deixamos para trás, sem esperança de voltar a vê-los em vida. Pedaços de papel são as únicas estradas nas quais seguem os nossos desabafos. Antes fosse somente algo a se fazer, caso o sono nos abandone no meio da noite. Agora sei que é inevitável desabafar enquanto se escreve. E então, aqui eu o faço.
Antes não quis lhe contar, mas agora sinto um medo maior que a minha capacidade de suportá-lo.
Minha mãe, eu sinto tanto a sua falta, apesar de nunca confessar tal fato na tentativa de manter-me firme perante os outros homens. Sinto saudade de todos em casa, mas a sua ausência é a mais perturbadora, a mais dolorosa.
Durante esses dias tenebrosos, tenho que conter todas as minhas lágrimas, aqui não há tempo para isso, não nesse lugar de onde podemos ver o início do fim do mundo. Mas se houvesse uma oportunidade, gostaria de chorar. Não posso cair na tentação de fazê-lo, porque talvez o pranto se alongasse por muitas horas. Infelizmente, quisera os homens do outro lado do mar fazer guerra contra os do leste e embora nós sejamos um povo pacífico dos campos, ha uma voz interior ininterrupta nos convocando a defender a terra de nossos avós, que tanto lutaram para desbravá-la e cultivá-la. Muitos dos filhos do ocidente vieram à contragosto, arrancados de casa por duras ordens previamente determinadas. Contudo, durante a marcha, as belas paisagens do Vale inspiraram até os mais arredios e inconformados a lutar contra a dominação estrangeira.
Minha mãe, minha linda rainha, tão pequena e frágil, tão dona de mim, desculpe-me pelo horror do meu relato, no entanto só posso confessar seus medos à sua acolhedora lembrança, mesmo assim tão rapidamente, nos poucos minutos que tenho antes do fim. Já não posso lembrar-me de ti agora pois me chamam lá fora para avistar algo que se avoluma no céu. Asas negras deixando as margens do rio, acho que os dragões estão finalmente se dispersando, talvez ainda hoje possamos recuperar as torres de guarda da margem oposta.
Espero que Oliver e Thomas tenham lhe enviado suas cartas também. Eu não pude seguir com o grupo deles para a missão a qual foram designados, e nos separamos a dois dias no front das Encostas dos Condenados. São mais espertos que eu, os seus meninos mais moços. São as fonte da sua alegria. Eles ficarão bem, estou certo disso, logo voltará a vê-los a trabalhar nos vinhedos.
Peço que não conte nada ao meu pai sobre esta carta nem sobre o meu medo, para não lhe causar constrangimento algum. Sou o seu guerreiro, o seu estandarte sempre inabalável. Que ele possa me preservar assim em sua memória.
Estou indo, agora, deparar-me com o flagelo dos homens. Aqui, na fronteira do desterro, os golpes da guerra são os mais fortes. Vou me preparar para mais um longo dia de combates e mesmo que o terror me cegue, reze para que as minhas reservas de coragem sejam perpétuas ou pelo menos o suficiente para manter-me aquecido nas noites que não acabam.
Mãe, não posso prometer-lhe retornar para casa e cuidar das nossas coisas simples, como sempre fizemos. Faça-o pelo seu filho mais velho. A única promessa que lhe faço é ama-lá, nessa fugaz eternidade que a guerra me concede, até que a vida seja fatalmente tirada de mim.