Dreamwalker - Untitled

Posted: terça-feira, 8 de fevereiro de 2011 by Bruno Ricardo in
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O que havia em sua totalidade encontra-se perdido em fragmentos pueris, memórias inconstantes, abstraidas na falsa irregularidade de seu movimento browniano, mas não menos parte de uma unidade confusa, pedaços de uma única grande verdade: um sonho que se desenrolou nas últimas horas da noite eterna, inglório, antes da derradeira aurora dos anjos.

Nesses poucos pedaços havia eu e o vazio de emoções. Havia um homem que em parte era eu, que era tudo, dado a minha onipresença. Fugia de criaturas ocultas dos olhos humanos, bestas que eu não reconhecia mas sentia sua presença, como que  tão próximas a minha sombra, a me perseguir por motivação desconhecida. Depois esse mesmo homem parou, de súbito, e plantou sementes de árvores em um campo verde, iluminado no centro, porém rodeado de escuridão. E alguem cuja face se escondia nas trevas lhe perguntava (ou perguntava a mim, que me confundia entre o palco e a platéia): "Hey, será que nascem árvores aí?".

E no desespero árvores brotavam inteiras do solo, em absoluta contradição que o estado de sonho permite realizar tais coisas em si mesmas. Eram fileiras de poucas árvores, mas acredito que eram o bastante para reprimir qualquer fera que naquela ocasião perseguia o homem agustiado. Foi-se que no meio das fileiras brotou uma ávore seca, vazia de tudo, contudo imponente, pois crescera de imediato até grandes alturas. E desta enorme ávore morta, fez-se troncos retorcidos como braços, alcançando pouca extensão, curvados em direções oblíquas, deu-lhe um aspecto de um rústico tridente.

Eu via agora como expectador, mas não tenho certeza da minha perspectiva. Ora, dalí a pouco, o tronco retorcido fora cortado e ferido, arrancado de sua metade que permanecera rigidamente fincada ao solo. Tal como ariete, fora conduzido a boca de uma criatura de horrivel aparência, aquela que parecia liderar as hostes perseguidoras de outrora, até a madeira transformar-se em um grande bolo que a grande esforço a criatura devorava, gritando em profunda agonia.

Todo o grupo agora partia em direção a um castelo preso a ponta de um penhasco. Enquanto iam, distinguia-se na visão do sonhador o branco de várias nuvens, enormes dominadoras dos céus e um azul lânguido da luz de uma manhã inédita.
 
Depois, nada mais consigo recordar.


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O Começo e o Fim

Posted: segunda-feira, 17 de janeiro de 2011 by Bruno Ricardo in
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Qual o tamanho da besta, a fera que assomou por sobre os montes na ocasião do nascimento das estrelas e desde então atormenta o coração dos homens, queimando-o em terror? Digo-lhes: sua imensidão é tamanha, devoradora de mundos inteiros. Formas amorfas de um inimigo constante, impregnado nas entranhas de nossos segredos, pairam sob a sombra de seu manto, a cor rubra e negra das lágrimas de sangue a cegar os proscritos filhos da terra.

Jamais imaginei deparar-me com tamanha desolação, o deserto vazio e infértil de meu coração solitário, perseguido até as bordas do infinito pela dor eterna e desmotivada, a qual se desconhece a origem de sua existência. O real invisível, o medo que me toma, roubou-me as forças desde menino, deixou-me órfão da casa de meus antepassados.

Eu, que tive a honra de andar sob a glória dos mortos, dos que sequer nasceram, e vi a luz branca dos primeiros dias de minha vida, fulgurante em um céu de maio. Eu que andei descalço sob campos de guerra, verdes em toda a sua extensão, então livres do cheiro das derradeiras batalhas. Eu que fugi do labirinto, voando ao lado de Ícaro, e o vi despencar do firmamento, em queda desesperada, acompanhada dos perturbadores gritos de seu pai. Eu que vi as estrelas a estibordo das naus da caravana, deslocando-se até o fim do mundo.

Agora restou-me o vislumbre de tua horrível presença, o temor mascarado do qual fugi, escondi-me em vão de tua ultraviolência. Pegou-me desprevenido e amarrou-me sem cordas à tua influência maligna.  A besta me envenena com suas palavras vis. Me impele ao precipício sem fundo, enquanto meus olhos afogam-se em lágrimas. O faz pelo prazer doentio de sentir o desespero dos condenados ecoando em meus murmúrios. Monstro pagão imundo! Não existem palavras na língua dos homens capazes de exprimir o ódio crescente, habitante do meu peito, exclusivamente direcionado a ti, aberração!

Se com a minha morte se fizesse também a tua, coisa nefasta, de bom grado doaria a minha carne às aves carniceiras e aos vermes ocultos no interior do chão, bem como a minha alma entregaria aos rios ardentes do Tártaro, somente para sorrir, enquanto carbonizo, ao vê-lo em agonia a tentar inutilmente escalar a tripla muralha.

Talvez, desse modo, tenha certeza de sua morte dolorosa, pois tu és criatura feita a minha imagem e semelhança, senão és tu eu mesmo, a flor negra do espinheiro nascida aos pés do crucifixo.

"Homo homini lupus"

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As Últimas Luzes de Dezembro

Posted: sábado, 11 de dezembro de 2010 by Bruno Ricardo in
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É aqui no meu peito que mora a tristeza imaculada, a dor crônica imotivada, embora haja necessidade de interpretar a razão deste sofrer que não vai embora, cercando as minhas horas, a espreita de uma brecha, ferida aberta na alma do poeta.  Essa noite, de repente, ela volta, senta-se ao meu lado na ausência a cultuar o tolerável mesclar de sentimentos ainda vagos, indistintos em seus disfarces, porém tão reais quanto a realidade mais dolorosa.

Queria agora a estrada dura, o negrume do asfalto sob as rodas da motocicleta, enquanto o coração, a sangrar, segue decorando de rubro a camisa apertada que me envolve. A estrada, a me levar para longe, onde brotam os sonhos e as esperanças humanas são sintetizadas num belo jardim onde Deus plantara rosas brancas. A estrada triste que na há, inerte e imaginária escapatória para esse sufocante aperto ininteligível de meu ser.

Noite, doce companheira dos degredados insones. Luzeiros de trovões ecoam no teu céu em ligeiras e intermitentes auroras. Mas quando eu perceber, já estará chovendo lá fora, gotas preciosas apaziguando a febre dos dias sertanejos. Antes disso é mais frio dentro de mim, é extremamente insuportável prosseguir. Quem dera fosse a mascara taciturna que me assusta na passagem por essas veredas mas, infelizmente, é algo pior. 

Estou perdido nas trevas solitárias deste cárcere. Milhares de lágrimas, natimortas, jazem nos meus olhos antes do grito mudo. Ardem as minhas vistas. Sinto-me mais sozinho agora e a sensibilidade de meus dedos se vai, esvaindo simultaneamente em mim o direito humano de existir. Além dessa angústia eu me encontro, cego pelas verdades que minha tristeza, insensata tristeza, me permite distinguir. Atado às minhas costas repousa o peso de um mundo inteiro, o lar de plantas mortas e fantasmas de pessoas cruéis. Por sua vez, sob o julgo de correntes apertadas, desgastado metal a cortar os pulsos tão machucados, meus braços repousam ao lado do corpo, quietos, encerrados em seus túmulos sem epitáfios, pois desistiram de buscar a chave que abre essas algemas.

Como diz a música: “é uma dor que dói no peito”, apenas dói. Talvez seja somente a minha tendência ao drama, fruto das  sucessivas tentativas infrutíferas de assassinato do ego, ou os reflexos dos meus exageros misturados à conclusões precipitadamente errôneas.

Mas hoje eu estou triste assim e sinto tanta falta do mar.

Sinto falta de tudo.

PS: Oi! Como vão as coisas aí no Paraíso?

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It's about life

Posted: sábado, 27 de novembro de 2010 by Bruno Ricardo in
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Oh sim, meus queridos filhos, ainda que cabisbaixo este servo volta à casa das suas palavras avulsas tal qual retorna a casa do pai o filho pródigo que viveu um tempo por entre os porcos. Ah, são bichos tão exigentes estes com os quais convivi. A princípio considerei dar-lhes migalhas douradas de minha atenção e quando percebi já havia a muito me perdido, vendo a minha figura envolvida em sua imundice abjeta. Entretanto, não importa falar a vós sobre tempos idos, pois vim aqui, nesta noite negra, especialmente para falar sobre a vida.

Vida, em suas impossibilidades descritivas, em coleções de análises superficiais e resultados incertos, digo que há somente uma única verdade nessa torrente de respirações e batimentos cardíacos: a mudança, senhora da unidade.

Agora mesmo, a morte, ingrata realidade, é princípio único ou fato incontestável, mas nem ao menos possui força o suficiente para fugir ante as nuances das interrogações humanas, pois há neste mundo quem afirme que este derradeiro momento é senão começo de tudo.

Não quero duvidar nesta hora. Então será somente verdade aquilo que se prova por fatos, afirmações exatas, o material que permeia este discurso tresloucado.

23 anos nessa estrada. Excluindo-se as fatais comparações de ordem numérica este é um espaço de tempo demasiado extenso para o aprendizado. Quantas vezes eu respirei desde aquele amanhecer? Quantas vezes meu coração jorrou sangue para as demais partes de meu corpo? Quantos pensamentos brotaram em mim, desgarrados de minha alma, pulsaram em supernovas, embebidos em vida própria me consumiram e construíram meu mundo? Quantos? Tantos.

Reticências e dúvidas, mas certezas e lições trouxeram-me a esta noite de novembro, desfazendo-se em seus últimos dias. Atrevo-me a desfrutá-la no vislumbre de seus estertores, enquanto minha inspiração, fornecendo doses de fúteis epifanias, ri da desgraça e desfaz-se em sombras ao final destas linhas irrelevantes. Com nitidez eu percebo que a vida é senão uma sopa de mudanças, transeuntes de vielas ocasionais, descuidadas e imprevistas damas de luto, que sorriem da face abatida dos homens.

Oh, meus queridos filhos, isto é tudo que saberás com certeza sobre a vida. Hoje ha castiçais adornando as paredes e cadeiras negras de madeira aromática, emblemáticas em seus belos entalhes, revelando imagens de amanhãs bonitos. Serão, entretanto, no teu próximo despertar, memórias daquilo que jamais aconteceu. Quando vier a saudade da casa do pai, nem a dor indissolúvel será companheira, pois no tempo que esta vier a ser, novamente, dona desta noite de um novembro moribundo, não serão vocês os mesmo meninos aos quais um dia falei.

Oh, minhas crianças, corre neste peito um rio de lágrimas e risos, margeado pelo infinito desprovido de cais, e represa alguma possui poder para barrá-lo em lagos profundos. Sendo eu somente este rio, mudo a trajetória do destino mais cruel e perfuro a pedra bruta, escavando permanentes vales por onde minha presença se realiza. Mas o faço sem propósito e, discreto, admito não saber onde estará finalmente o meu estuário. O verbo transforma-me, eu transformo o mundo e este último sou eu, dançando no trânsito de inconstâncias.


E aqueles que nascem da dor de suas mães serão testemunhas desta verdade: a perpétua metamorfose de si em comunhão com o mundo, onde nos encontramos encarcerados nesta teia de linhas imaginárias, finitas, preciosos fios de vida soltos ao vento que sopra do mar desconhecido.


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"Now the drugs don't work"

Posted: segunda-feira, 1 de novembro de 2010 by Bruno Ricardo in
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“Esta é a vanguarda dos meus dias mais escuros.
Porque hoje a luz deixara a minha vida”.

Assim escrevera com letras bem desenhadas nas linhas azuladas do caderno até então não usado, presente de sua mãe, este amálgama de palavras que abandonaram a morada de seu inconsciente.

Aníbal morrera sozinho no deserto, acometido pela sede e inanição, pelo amor não correspondido e pela queda de Azaléah, utopia moribunda a deitar-se, tal qual uma vadia, no fundo do mar. Miranda fora decapitado numa tarde de quinta feira, por não conseguir desviar-se das escamas prateadas da grossa cauda de um dragão incauto, desgarrado do bando, assustado com o barulho das máquinas de guerra. Oliver caiu desse precipício e nada restou de seu corpo que fosse o suficiente para um funeral. Abaixo, viram somente uma grande mancha escarlate a colorir as paredes de pedra e cegar-lhes os olhos, lá embaixo um vislumbre de horror tamanho, obscurecido pela sombra que habitava as profundezas de seu último repouso. Thomas pereceu após muitos dias de lágrimas involuntárias, provocadas pela intensa perturbação vinda da árvore da guerra. Valéria sobreviveu ao genocídio e as batalhas pela torre de seu clã, mas o fogo que veio do céu fizera de seu sorriso uma brasa vermelha e negra. Um leito de dor restara para os teus pais, a muito esperando, ansiosos, a chegada do último anjo.

 Quem lhes fala agora? Somente um contador de histórias de eficiência contestável e sem talento algum para desempenhar tal ofício. Apenas este servo de Deus, que já abandonara o reino dos homens no intento de viver no exílio, na ilha da noite. Recluso, impossibilitado de possuir aquilo que lhe falta. 

 Oh, este velho e pequeno escravo, arruinado pela sombra do terror, agora acostumado às amarras e grilhões de ferro, amigo de sonoras correntes seguindo seus passos: deixai que esta aberração vos fale. Pois estou me afogando em desespero e gostaria muito que alguém pudesse me ajudar. "Now the drugs don't work. They just make me worse..."

Aníbal me disse adeus, acenou na distância, quando eu o vi em forma de sombra, uma silhueta negra contra a luz do ocaso. Miranda não me concedera o abraço que prometeu nos campos de trigo, pois por ele esperei durante trezentos anos e sequer notícias de sua morte recebi. Oliver nadou nas águas claras do rio com nossos primos, junto às muralhas, mas não comeu do peixe assado nas margens. Thomas mudou-se sem bagagens para Liverpool. Valeria teve o coração trespassado pelas minhas dúvidas, agonizou em seus derradeiros instantes, faleceu, finalmente, vitimada pela vilania disfarçada de meu egoísmo, pelos anseios de minha meninice, e nunca mais me mandara uma carta dentro de uma garrafa lançada ao mar. 

Restou-me morrer mais uma vez, antes de abraçar-me a loucura. Ou será o viver a insanidade que não consigo suportar? Aqui, no meu prato, a comida fria a me adoecer, o fardo vazio e pesado atado às costas, “the same old fears”, os recorrentes pesadelos de violência absurda, os dias de névoa negra a cobrir a entrada da caverna, as criaturas deformadas que gritam no meu quarto por toda a longa noite. Sobrou para este servo o pão nosso de cada dia, que comerei sozinho, calado, morrendo por toda a eternidade.


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À Minha Mãe

Posted: quinta-feira, 29 de julho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Petrolina, 29 de Julho de 1923

Desculpe-me se as letras desta carta tiverem uma aparência trêmula, mas agora o meu corpo está reagindo ao frio ansioso de minha alma. Nesta hora, está difícil fazer qualquer coisa que exija um pouco mais da minha coordenação motora.

São precisamente cinco horas e treze minutos de uma manhã de quinta feira, enquanto essas palavras começam a abandonar-me. Faz frio aqui dentro do pavilhão, lá fora talvez não com a mesma intensidade. O ventilador coletivo move as suas hastes plásticas acima de nossas cabeças, a fim de produzir um vento artificial, um alento aos que sentem um inevitável calor noturno, mas para mim um capricho desnecessário, salvo pelo barulho que produz, abafando os gritos dos mutilados na longa madrugada, ainda gemendo na enfermaria improvisada montada diante de nós.

À noite eu acordei duas vezes enquanto dormia. Esta foi a segunda e definitiva. Nessa situação é preferível levantar-se e buscar alguma atividade para ocupar a mente a ficar rolando na cama em agonia, lembrando-se de pesadelos recorrentes ou memórias perturbadoras do dia de amanhã. Muitos aqui o fazem, os capitães nos permitem algumas regalias ou fingem não perceber a nossa leve insubordinação neste e em outros casos.

Mas desta vez não foram os gritos humanos que me despertaram. Estou angustiado demais para me manter dormindo, aqui os meus medos são incessantemente renovados. Talvez sejam as crises respiratórias, menos constantes depois dos remédios que chegaram a dois meses atrás. Afinal, de quê adianta buscar um motivo se a algum tempo eu já estou acordado?

Por esta razão única, ainda que não entenda o objetivo dessa manobra involuntária dos meus dedos, deito a pena sobre o papel, a desenhar formas em seus significados, na tentativa inútil de reproduzir aquilo que de forma indistinta corrobora a sua existência. Medo, inquietude, pulmões constantemente esmagados pelo nada, como poderia reproduzir tais coisas com palavras?

Ontem vieram Dragões negros e tomaram a ponte e a cidadela, afastando as nossas últimas defesas do rio. Uma surpresa bastante desagradável, não nos encontrávamos preparados para enfrentar tais diabruras. Garras aladas rasgaram a carne de muitos homens e outros tantos foram queimados por labaredas das quais não havia escapatória. Houve fogo no céu nessa tarde vermelha ao passo que sórdidos gritos vindos dos mais profundos círculos do inferno, eram proferidos por aquelas bocas fumegantes. Talvez, parte das tropas Orientais bombardearam seus territórios e as feras foram então tomadas por uma violência incontrolável, arremetendo-se sobre nós, que nos encontravamos mais próximos dos contrafortes desses montes cinzentos.

E durante toda a noite reproduziu-se o terror do dia sob outras formas não menos hediondas. Damas sem rosto usando vestidos feitos da pele escura dos dragões mortos, bruxas vindas das derradeiras minas fantasmas, entoaram canções encantadas dos altos dos montes, levando o desespero para dentro de nossos corações já abalados. Seus risos sinistros paradoxalmente nos causaram tristeza. Até agora a pouco havia ecos desse maldito canto sonoro, percorrendo os pavilhões, uma melodia terrivelmente harmoniosa anunciando a inevitável morte. Antes que eu viesse a dormir, soube que muitos dos nossos, enlouquecidos pela tristeza, atiraram contra a própria cabeça ou contra os outros companheiros de quarto, enquanto alguns dilaceraram os pulsos com a lâmina das cimitarras.

Nas nossas mentes, todas essas coisas nos pareciam lendas de um mundo antigo e perdido. Quisera isso fosse verdade. Algo me diz que outras vezes voltarei a desejar isto.

Ainda que eu não mais mencione e o correr de muitos anos me levem à velhice estagnada, uma hipótese tão irônica, a lembrança desses horrores me causará a mesma vívida sensação ou ela será apenas despertada como uma besta sonolenta habitando o meu peito. De fato, eu nunca sairei desse campo de sangue. Estarei preso a ele permanentemente, com os meus irmãos, em vigília, aqui onde a noite é mais escura. Será que já estamos mortos? Chego à conclusão que nenhum de nós poderá voltar para casa um dia.

Os primeiros raios da aurora investem sobre o acampamento, ao fim dessa carta já não precisarei da luz do lampião para escrever. Não tenho certeza se esta chegará as suas mãos, assim como outras que escrevi nos últimos meses que perderam-se nos contínuos ataques aos comboios que nos foram relatados.

Esta é uma terra de incertezas e cada um de nós está sozinho, a falar com confidentes invisíveis, distantes demais do acampamento. Eles são vocês, que deixamos para trás, sem esperança de voltar a vê-los em vida. Pedaços de papel são as únicas estradas nas quais seguem os nossos desabafos. Antes fosse somente algo a se fazer, caso o sono nos abandone no meio da noite. Agora sei que é inevitável desabafar enquanto se escreve. E então, aqui eu o faço.

Antes não quis lhe contar, mas agora sinto um medo maior que a minha capacidade de suportá-lo.

Minha mãe, eu sinto tanto a sua falta, apesar de nunca confessar tal fato na tentativa de manter-me firme perante os outros homens. Sinto saudade de todos em casa, mas a sua ausência é a mais perturbadora, a mais dolorosa.

Durante esses dias tenebrosos, tenho que conter todas as minhas lágrimas, aqui não há tempo para isso, não nesse lugar de onde podemos ver o início do fim do mundo. Mas se houvesse uma oportunidade, gostaria de chorar. Não posso cair na tentação de fazê-lo, porque talvez o pranto se alongasse por muitas horas. Infelizmente, quisera os homens do outro lado do mar fazer guerra contra os do leste e embora nós sejamos um povo pacífico dos campos, ha uma voz interior ininterrupta nos convocando a defender a terra de nossos avós, que tanto lutaram para desbravá-la e cultivá-la. Muitos dos filhos do ocidente vieram à contragosto, arrancados de casa por duras ordens previamente determinadas. Contudo, durante a marcha, as belas paisagens do Vale inspiraram até os mais arredios e inconformados a lutar contra a dominação estrangeira.

Minha mãe, minha linda rainha, tão pequena e frágil, tão dona de mim, desculpe-me pelo horror do meu relato, no entanto só posso confessar seus medos à sua acolhedora lembrança, mesmo assim tão rapidamente, nos poucos minutos que tenho antes do fim. Já não posso lembrar-me de ti agora pois me chamam lá fora para avistar algo que se avoluma no céu. Asas negras deixando as margens do rio, acho que os dragões estão finalmente se dispersando, talvez ainda hoje possamos recuperar as torres de guarda da margem oposta.

Espero que Oliver e Thomas tenham lhe enviado suas cartas também. Eu não pude seguir com o grupo deles para a missão a qual foram designados, e nos separamos a dois dias no front das Encostas dos Condenados. São mais espertos que eu, os seus meninos mais moços. São as fonte da sua alegria. Eles ficarão bem, estou certo disso, logo voltará a vê-los a trabalhar nos vinhedos.

Peço que não conte nada ao meu pai sobre esta carta nem sobre o meu medo, para não lhe causar constrangimento algum. Sou o seu guerreiro, o seu estandarte sempre inabalável. Que ele possa me preservar assim em sua memória.

Estou indo, agora, deparar-me com o flagelo dos homens. Aqui, na fronteira do desterro, os golpes da guerra são os mais fortes. Vou me preparar para mais um longo dia de combates e mesmo que o terror me cegue, reze para que as minhas reservas de coragem sejam perpétuas ou pelo menos o suficiente para manter-me aquecido nas noites que não acabam.

Mãe, não posso prometer-lhe retornar para casa e cuidar das nossas coisas simples, como sempre fizemos. Faça-o pelo seu filho mais velho. A única promessa que lhe faço é ama-lá, nessa fugaz eternidade que a guerra me concede, até que a vida seja fatalmente tirada de mim.

Com amor

Miranda, Angelo F.
Segundo sargento de infantaria - 30ª brigada da Última Milícia do Leste


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Dreamwalker - Walking on the Ruins

Posted: segunda-feira, 26 de julho de 2010 by Bruno Ricardo in
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Aqui registro partes indistintas do mais atual relato daquele que caminha em sonhos lúcidos. Afirmo que esta não foi a primeira vez que vira o mar, porém a única ocasião em que, mais tarde, ousou descrevê-lo em seu pensamento através de palavras, o quê lhe provocou uma intensa dor de cabeça.


Havia despertado finalmente, após longas horas de um sono perturbado e encontrava-se deitado, com os olhos semicerrados voltados para o céu nublado, os braços estendidos sob a areia úmida de uma praia insólita. Em suas recordações quase não há a menção do brilho solar costumeiro do mundo consciente ou esta perdera-se nos atalhos corrompidos das suas sinapses imaturas. De fato, não estranhou a iluminação deficiente daquele cenário. Talvez pela razão de, após tantos implantes oculares mal sucedidos (maldita heterocromia) ter tornado-se excessivamente sensível à luz natural do dia, um fogo incolor que queimava as suas íris intensamente alteradas, fazendo as pálpebras feharem-se ao menor estímulo luminoso. Contudo, para qualquer outro observador, tal ausência do sol era uma incongruência desagradável naquela paisagem.

Sentou-se então e em sua primeira reação pôs os ouvidos na direção do mar sem ondas que se estendia a sua esquerda. Não seria capaz de afirmar a exata distância a que se encontrava daquelas águas salgadas. Além do barulho das ondas, o silêncio predominante o reprimia, não o suficiente para intimidá-lo. Sempre teve medo de amplos espaços abertos e desolados, mas um simultâneo fascínio pelos mesmos. A muito tempo apaixonou-se pela imensidão vazia desses ermos, que o expõe a todas as coisas invisíveis, constituintes do seu ser. Porém, a solidão daquela praia já havia sido maculada pela presença de corpos estranhos dispostos ao longe na areia, sombras que a sua visão começava a distinguir, pois tornavam-se mais nítidas a cada instante.

Aos que leram até este ponto, aviso: o que se segue perturbou profundamente os sentidos daquele que o viu. Não por horror ou asco inerente àquilo que reluto em descrever. Mas, assim como a inexistência de um sol no céu sobre uma praia deserta em pleno dia nos causa estranheza, a imagem que seus olhos observaram poderia fazê-lo enlouquecer subitamente, sem que percebesse. Não se preocupe, serei cuidadoso e as próximas linhas não serão capazes de lhe provocar nenhum transtorno.

Não comprometerei meu relato com meias verdades, apenas usarei a sutileza concedida pelo mais profundo eufemismo para dizer que ali havia destroços. Peças arruinadas e de proporções terrivelmente assombrosas, atiradas à costa por força desconhecida. Não precisou caminhar até elas para distingui-las em sua desconfortável realidade, era desnecessária uma maior proximidade para perceber os detalhes incômodos.

Condenou internamente a infeliz razão inexplicável da perfeita funcionalidade dos seus olhos e ouvidos naquela ocasião absurda.

Eram milhares de pedaços negros de grandes prédios, afundados na areia, espalhados em fila, muito próximos do mar, distanciados por uma incomum simetria, alguns como que cortados em sua metade superior, outros exibindo os alicerces metálicos e enormes pilastras erguendo-se da decadência, tal qual torres agourentas encimadas sobre montes de fragmentos inúteis e de aspecto sombrio. Incontáveis eram aqueles restos. Eram como que feitos para gigantes habitarem. Conscientemente, ninguém ousaria quantificá-los pelo motivo de ser impossível olhar para eles pelo tempo necessário e ainda lembrar-se de manter a sanidade psíquica.

Parecia que as ondas ecoavam os seu gritos através dos escombros, sons que se assemelhavam a vozes e lamentos. Supunha que ainda havia pessoas naqueles prédios, imersos em seus afazeres, quando algo terrível lhes ocorreu, pois confundindo-se com o metal retorcido e o entulho disforme, os restos que avistou não eram somente feitos de concreto. 

Apesar disso, a pavorosa impressão de que algo não-humano sairia a qualquer momento daquelas janelas distorcidas ou dos buracos escuros nas paredes tornou-se insuportável. As ondas gritavam num tom grave e doentio, descansando entre pequenas pausas. E num desses curtos intervalos, ele então reuniu alguma coragem e levantou-se trêmulo, caminhando a esmo por algum tempo, tendo à sua esquerda e a pouca distância, a alameda de restos mortais dos edifícios a acompanhá-lo. Vez ou outra os fitava e olhos ocultos pareciam persegui-lo em sua caminhada. A faixa de areia era curta. O nada dominava o seu lado direito. Por essa razão ele não caminhou naquele sentido. A sua frente não é possível descrever com exatidão o que havia, pois ele não recorda de mais nada, além da sensação dos pés caminhando apressados, do medo que crescia a cada passo e da luz cinzenta possuindo aquele dia. 

Aves em bandos sobrevoavam ansiosas o topo dos prédios. Barulhentas, descreviam círculos no ar e pousavam no topo das construções. Uma ou outra adentrava as ruínas, saindo de lá com alguma coisa presa no bico. Alçavam vôos curtos até alcançarem um lugar seguro e isolado dos seus e ali abaixavam a cabeça, punham aquilo que carregavam no chão e rasgavam-no em movimentos constantes, engolindo os pedaços menores que obtinham daquela ação obstinada. Sentiu nojo sempre que relembrou essa cena.

O mais surpreendente aconteceu em seguida. Quando viu tal coisa, achou que sua razão o abandonara de vez.  Eram frágeis e perceptíveis os movimentos familiares de braços e pernas assomando em alguns poucos lugares. Tampouco eram vultos ou fantasmas o que via.

Ergueu o olhar e surpreendeu-se. Sentados no alto de colunas parcialmente destruídas, encontravam-se pessoas a contemplar o mar, absortas em sua minuciosa observação. Eram poucos indivíduos, talvez dez ou quinze ao todo, separados por grande distância uns dos outros, cada qual suspenso em ruínas diferentes.  Alguns eram homens, outros mulheres. Sua nudez não espantou o atônito passante. Não foi na direção deles enquanto os espreitava angustiado, mas todos eles notaram a sua presença e ergueram a mão num aceno no momento em que o avistavam. Sorriam em silêncio enquanto o faziam, apesar dele não ter correspondido a nenhum dos cumprimentos a ele dispensados. 

Nessa hora, voltou-se sem esperanças para a sua direita e percebeu que um cenário diferente brotava daquela morbidez. Foi que se fez luz, de repente, e os destroços ficaram para trás. Uma estrela amarelada resplandeceu, acalmando-o.

A bela cidade emergiu por mágica. Prédios intactos enfeitavam a orla e pessoas apressadas caminhavam na calçada de pedras brancas. Notou que montanhas altas circundavam aquela nova paisagem. Eram azuladas na distância, mas perto dos seus olhos pareciam uma única e verde muralha. Todos ali esboçavam uma expressão de felicidade plena, embora ele ainda  se sentisse inundado pelas sensações ruins de outrora. A alegria vinda daqueles rostos não se assemelhava a alegria catatônica daqueles homens e mulheres da praia. Apegava-se ao novo vislumbre enquanto tentava apartar-se das memórias desesperada dos instantes anteriores.

Estava em pé na calçada, o mar às suas costas, quando um ônibus parou próximo a ele. As portas abriram-se num suspiro ruidoso. Lembrou-se que deveria estar em outro lugar naquele exato momento. Sentiu-se atrasado para um compromisso inadiável. Entrou no veículo e sentou-se num banco, encostando intuitivamente o cotovelo no vidro da janela enquanto a mão direita segurava a barra de ferro que servia de encosto para o banco a sua frente. Esqueceu-se de vez da praia dos destroços, no momento em que retirava a máscara de dentro do bolso da calça na intenção de usá-la. O brilho da luz tornara-se suficientemente forte para aturdi-lhe a vista. A máscara que lhe fizeram dessa vez reduzia os efeitos da sensibilidade ocular. Além disso, este acessório possuía várias outras funções que não revelarei aqui, apenas o fato de quê era um equipamento indispensável as suas viagens por a reduzir fragilidade de seus pulmões, quando esses estabeleciam contato com o ar do inconsciente, o quê também estava auxiliando a diminuição do risco de rejeição do braço mecânico recentemente implantado.

A sensação de atraso o dominava, o deixava ansioso demais. O ônibus fez uma curva, dobrando uma esquina, revelando uma pequena praça mais a frente. Algo lhe ocorreu, o impulsionando a descer do ônibus de imediato. As portas abriram-se uma outra vez, fez-se o mesmo suspiro mecânico. Desceu em profunda aflição. Atravessou a rua apressado parando no largo. O sol jazia no meio do céu, mas a praça era sombreada pelos galhos entrelaçados das duas árvores que cresceram em seus pólos e encontraram-se no meio num desejo desmedido de unirem-se uma a outra, não permitindo que a luz penetrasse ali embaixo.

Ele havia entendido o significado daquela união. A calma retornou para dentro dele enquanto lembrava-se do compromisso que a pouco o perturbava.

Na praça das árvores unificadas ele haveria de encontrá-la ao meio dia. Um sorriso nasceu na sua face, fazendo-o se sentir ridículo usando aquela máscara feia. Quando a retirou do rosto sentiu duas mãos encobrirem os seus olhos e por meros segundos assustou-se. Eram mãos enormes e delicadas as que lhe cegavam de propósito. O seu sorriso abriu-se sem pudor, nada mais poderia censurá-lo no momento em que reconheceu aquele toque confortável.

Eram as mãos da sua amada, pregando-lhe uma brincadeira. Virou-se para abraçá-la e retribuir as carícias, quando percebeu que ela parecia muito maior que o normal.

Vestia uma blusa cor de rosa e um short branco e tinha quase a altura das árvores da praça. Era uma menina morena, de cabelos pretos e um belo sorriso, capaz de contagiar qualquer um que o visse, inspirando-o a sorrir em consonância.

Ah esses sonhos nos pregam peças estranhas. Mostou-lhe a mulher amada de forma imponente para tentá-lo a desistir do abraço, para tentar assustá-lo em seus domínios. Tudo isso foi em vão.

Talvez porque é dessa forma que ela vive dentro de sua mente, grande e soberana, acolhedora em seus toques e abraços, uma guardiã a protegê-lo e amá-lo. Todavia, ele a abraçou com intenso alívio, mesmo sob aquelas circunstâncias, pois caminhou por horrores, guiado pelo amor de sua menina, a chamá-lo num canto lírico soprando em seus ouvidos, mesmo quando ele adormecia.

Não sei ao certo, mas durante aquela união ele tornou-se tão grande quanto ela ou ambos diminuíram e desapareceram, fugindo para um lugar secreto onde moram aqueles que se amam.

...

Muito obrigado pelos livros, nêga. 
Realizou um sonho meu, porque talvez eu nunca poderia realizá-lo.
Te amo, minha linda.

Bruno

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